A falsa simetria entre Bolsonaro e Lula
A insistência em colocar Bolsonaro como antagonista de Lula distorce o cenário eleitoral, alimenta narrativas falsas e compromete o debate democrático para 2026.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 22/11/2025 às 00:01 | Atualizado em: 22/11/2025 às 05:03
Há algo profundamente errado na forma como parte da imprensa e dos institutos de pesquisa tem apresentado o cenário político para 2026. A cada nova sondagem, repete-se a mesma farsa metodológica: Jair Bolsonaro aparece como principal antagonista de Lula, como se fosse um jogador ainda em campo, pronto para disputar a próxima eleição presidencial. Não está. Bolsonaro está inelegível, preso e fora do jogo eleitoral.
Portanto, insistir em colocá-lo como adversário direto de Lula em 2026 é construir um cenário que não existe. Ou seja, é criar uma falsa simetria que distorce o debate público, desorienta a população e, no limite, prejudica o próprio processo eleitoral.
Imprensa golpista
A imprensa golpista, juntamente com os institutos de pesquisa, insiste nessa construção artificial para nos convencer de que há uma forte polarização no país, como se existissem dois polos legítimos competindo em condições simétricas. Não há. Isso não se sustenta.
De um lado, temos um campo democrático, plural, institucionalmente comprometido com as regras do jogo. De outro, tem-se uma extrema-direita que atacou as instituições, estimulou violência política, tentou inviabilizar o resultado das urnas e hoje segue mobilizando ressentimento e desinformação. Ora, senhoras e senhores, polarização pressupõe proporcionalidade e equivalência, algo que simplesmente não existe no Brasil atual.
Não há, no cenário político nacional, um polo de extrema-esquerda disputando hegemonia, tampouco qualquer grupo radical com chance eleitoral real. Há, isso sim, um projeto democrático enfrentando a herança autoritária do bolsonarismo.
Efeitos concretos
Nesse contexto, o uso recorrente do nome de Bolsonaro nas pesquisas, mesmo com a sua inelegibilidade decretada há mais de dois anos, não é um mero detalhe técnico, nem simples metodologia de teste. É uma escolha que produz efeitos concretos.
Em primeiro lugar, normaliza a presença política de quem atacou frontalmente o sistema eleitoral. Em segundo, projeta a ideia de que o país está condenado a reviver o pleito de 2022, como se a sociedade não tivesse o direito de virar a página. E, por fim, cria uma falsa centralidade: Bolsonaro aparece como eixo do debate, quando, na realidade, tornou-se irrelevante do ponto de vista institucional.
Nesse sentido, pesquisas que o incluem como candidato funcionam como um atalho narrativo que desinforma. Reforçam a ilusão de que estamos diante de uma disputa clássica entre dois polos, quando a verdade é outra: o Brasil enfrenta uma assimetria política profunda.
De um lado, a democracia em funcionamento. Do outro, um movimento que não reconheceu o resultado das urnas, que estimulou atos golpistas e que, hoje, opera de dentro das redes sociais, mas não mais das instituições. Nesse âmbito, falar em “polarização” é entregar de bandeja uma legitimidade que a extrema-direita não possui, e que, aliás, não deveria possuir após os ataques antidemocráticos dos últimos anos.
Construção equivocada
A consequência dessa construção equivocada é dupla. A imprensa, ao insistir nessa narrativa, mantém o país preso a um fantasma eleitoral; e os institutos de pesquisa, ao reproduzi-la, comprometem a própria credibilidade. O papel do jornalismo é esclarecer, não confundir. O papel da pesquisa é iluminar o cenário real, não criar personagens fictícios.
E, convenhamos, o cenário real é outro: as forças políticas que de fato disputarão 2026 estão muito além da sombra de Bolsonaro. Continuar inflando seu nome é ignorar lideranças emergentes, subestimar movimentos sociais, apagar a renovação partidária e distorcer o processo eleitoral.
É claro que o bolsonarismo ainda existe como fenômeno social, que precisa ser analisado, enfrentado e compreendido. Mas o bolsonarismo não é Bolsonaro, assim como o lulismo não é Lula. Os fenômenos transcendentes sobrevivem aos seus líderes, mas as eleições são disputas institucionais concretas, não exercícios de ficção política. Se Bolsonaro está fora do jogo, colocá-lo no jogo é fazer propaganda, não ciência.
Considerações finais
No fim das contas, insistir nessa falsa simetria é um desserviço ao país. É manter viva uma narrativa que não corresponde ao momento político. É impedir que o debate avance para onde deveria: propostas, programas, alternativas, rumos possíveis.
Portanto, se quisermos proteger o processo democrático, o primeiro passo é simples: parar de tratar como equivalentes realidades que não são equivalentes. E exigir das instituições, inclusive imprensa e institutos de pesquisa, compromisso com a verdade e com o país. A democracia não se sustenta com ilusões, mas, sim, com clareza.
*O autor é sociólogo.
Arte: Gilmal
