As outras vítimas do bolsonarismo

O bolsonarismo não atinge apenas indivíduos, mas também as instituições que organizam a vida pública.

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 25/04/2026 às 00:10 | Atualizado em: 25/04/2026 às 07:14

Quando se fala em vítimas do bolsonarismo, muitos pensam imediatamente nos mortos da pandemia. E não estão errados. No entanto, essa é apenas uma parte da história. Há outro alvo, menos visível e mais estratégico: as instituições que sustentam a vida pública no país.

Essas são as outras vítimas do bolsonarismo, menos visíveis, mas centrais para o funcionamento da democracia. É contra elas que o bolsonarismo atua de forma contínua, corroendo sua credibilidade e abrindo espaço para a desinformação.

O bolsonarismo não se limita a disputar poder. Ao contrário, ele investe na deslegitimação da vida pública. Ataca, desacredita e corrói instituições até que elas percam sua função mais básica: produzir confiança social.

Método do bolsonarismo

Esse método não nasce do improviso. Pelo contrário, a extrema-direita organiza sua ação de forma sistemática. Em primeiro lugar, espalha desinformação. Em seguida, alimenta campanhas difamatórias. Por fim, constrói narrativas conspiratórias. Com isso, amplia o ataque às instituições brasileiras e cria um ambiente em que qualquer mentira pode circular como verdade.

Nesse contexto, o Supremo Tribunal Federal vira alvo constante. Do mesmo modo, o Tribunal Superior Eleitoral entra na linha de fogo. Além disso, as urnas eletrônicas passam a ser questionadas sem prova alguma. Ao mesmo tempo, o bolsonarismo transforma a imprensa profissional em inimiga e acusa as universidades de doutrinação. Assim essas instituições compõem o conjunto das outras vítimas do bolsonarismo.

Nada disso ocorre por acaso.

Ao intensificar esse processo, o bolsonarismo enfraquece os mecanismos que limitam o poder. Consequentemente, sem esses limites, o autoritarismo avança com mais facilidade.

IBGE: outra vítima do bolsonarismo

Agora, o alvo da vez é o IBGE.

Fundado em 1936, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística construiu uma reputação sólida ao longo de quase um século. O IBGE produz dados que orientam políticas públicas, decisões econômicas e análises acadêmicas. Em outras palavras, ele mede, organiza e apresenta a realidade. O IBGE agora se soma às outras vítimas do bolsonarismo.

E é exatamente isso que incomoda. Afinal, dados têm força, confrontam narrativas e desmontam versões convenientes da realidade.

Por essa razão, o ataque às instituições brasileiras alcança o IBGE com intensidade. Ao desqualificar seus números, o bolsonarismo tenta enfraquecer a própria ideia de evidência. Desse modo, se ninguém confia nos dados, qualquer discurso pode prevalecer. Da mesma forma, se a evidência perde valor, o negacionismo ganha espaço.

Nesse cenário, pouco importa se o desemprego cai, se a renda sobe ou se a economia se estabiliza. O bolsonarismo pode negar, relativizar ou distorcer qualquer informação conforme seu interesse político.

Considerações finais

Assim, o ataque às instituições brasileiras não produz apenas ruído, ele produz desorientação. E uma sociedade desorientada se torna mais vulnerável à manipulação. Por isso, é preciso dizer com clareza: as outras vítimas do bolsonarismo não são apenas indivíduos. São as estruturas que garantem o funcionamento da democracia.

Sem instituições fortes, não existe debate público qualificado. Não existe mediação de conflitos. Não existe confiança coletiva. Resta apenas a disputa bruta de narrativas. E, nesse terreno, a verdade deixa de ser um valor, vira apenas mais uma opinião.

A autor é sociólogo*.  

Arte: Gilmal