Dono do PL de Bolsonaro e Cunha expõem dutos de novo orçamento secreto

Investigações da PF mostram ex-deputados influindo fortemente nas emendas dentro da Câmara; R$ 1,3 bilhão sem identificação de autoria saiu pelos dutos da corrupção

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Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 13/07/2026 às 20:59 | Atualizado em: 13/07/2026 às 21:26

O dinheiro público continua encontrando caminhos subterrâneos dentro do Congresso Nacional.

De um lado, a Polícia Federal aponta o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha como beneficiários de um sistema de influência sobre emendas parlamentares mesmo sem exercerem mandato.

Do outro, um levantamento divulgado nesta segunda-feira (13 de julho) pela Transparência Brasil revela que R$ 1,3 bilhão em emendas de comissão da Câmara foi destinado em 2025 sem a identificação dos deputados que efetivamente escolheram os beneficiários.

Os casos não são apresentados nas investigações como um único esquema. Mas, vistos em conjunto, expõem o mesmo problema estrutural: dinheiro do orçamento circulando por canais em que o verdadeiro padrinho político pode permanecer escondido.

É a velha lógica do orçamento secreto reaparecendo por novos dutos.

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R$ 119 milhões e o presidente do PL

O caso de Valdemar Costa Neto, presidente do partido de Bolsonaro e seus filhos, ganhou dimensão após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar o bloqueio de até R$ 119 milhões em bens do dirigente partidário.

Valdemar Costa Neto não é deputado nem senador. Ainda assim, segundo a Polícia Federal, diálogos obtidos na investigação mostram seu nome associado diretamente à definição de valores de emendas.

⁠> “Fechou o valor do Pres Valdemar?” , pergunta um dos interlocutores em mensagem destacada pela investigação.

Em outro diálogo, surge a orientação: “Pode colocar o máximo que der”.

Para a PF, as conversas são indícios da influência exercida pelo presidente do PL sobre a destinação de recursos cuja indicação formal é prerrogativa de parlamentares em exercício.

A defesa de Valdemar afirma que recebeu a decisão com surpresa e sustenta que há uma tentativa de “criminalização da atividade político-partidária”.

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Cunha e o “pleno aval” na Câmara

O nome de Eduardo Cunha aparece em outra frente da investigação.

Ex-presidente da Câmara e sem mandato, Cunha teria mantido influência sobre a indicação de emendas por meio da servidora Mariângela Fialek, conhecida como Tuca.

A Polícia Federal usa uma expressão grave ao descrever o funcionamento do grupo.

Segundo os investigadores, “tudo indica” que Tuca contava com “pleno aval da presidência da casa” para promover desvios de emendas em favor de Eduardo Cunha.

A PF fala ainda em “altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto”.

Tuca atuava no processamento de emendas desde a gestão de Arthur Lira e permaneceu na função durante a presidência de Hugo Motta. A investigação levou ao bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens atribuídos a Cunha.

Eduardo Cunha nega crimes. Afirma que a operação tem caráter político e sustenta não haver provas de desvios.

O bilhão sem dono

Enquanto a PF tenta identificar quem atuava por trás de emendas específicas, um levantamento da Transparência Brasil mostra que o problema da autoria oculta é muito maior.

A organização analisou 16,6 mil indicações de beneficiários de emendas de comissão do orçamento de 2025, que movimentaram R$ 11,7 bilhões no Congresso.

Na Câmara, foram encontrados R$ 1,3 bilhão em recursos registrados em nome de lideranças partidárias, sem revelar quais deputados efetivamente escolheram os destinatários.

São 1.341 indicações sem identificação dos reais autores.

O valor corresponde a 16% dos recursos de emendas de comissão indicados pela Câmara em 2025.

A prática foi identificada nas bancadas do PP, União Brasil, Republicanos, PL, Avante, Podemos e Solidariedade.

Somente na Comissão de Saúde, R$ 818,1 milhões foram distribuídos por esse modelo.

E o mecanismo não desapareceu.

Dados parciais até maio de 2026 já mostram outros R$ 373,8 milhões sem identificação dos verdadeiros autores.

Segundo o estudo, além da repetição da prática por seis das sete legendas identificadas em 2025, o PT também passou a utilizar o modelo neste ano.

STF já mandou acender a luz

O ponto central é que o STF já declarou inconstitucional o orçamento secreto e determinou a identificação integral dos responsáveis pela destinação dos recursos.

Emenda parlamentar não pode ter dono escondido.

A exigência de rastreabilidade existe justamente para permitir que órgãos de controle, imprensa e sociedade saibam quem indicou o dinheiro, para onde ele foi e quem recebeu.

É nesse ambiente de opacidade que surgem personagens como Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha nas investigações da Polícia Federal.

Dois políticos sem mandato.

Dois dirigentes com enorme influência partidária.

E, segundo a PF, dois nomes capazes de aparecer nos bastidores da movimentação de milhões de reais em emendas do orçamento público.

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Novos nomes, velho encanamento

O orçamento secreto pode ter sido formalmente derrubado pelo Supremo.

Contudo, os fatos agora investigados e os dados da Transparência Brasil indicam que a tubulação política que permitia esconder os verdadeiros controladores do dinheiro público continua sob pressão.

Mudam os nomes das emendas.

Mudam os códigos.

Mudam os operadores.

O dinheiro, porém, continua escorrendo por caminhos que o cidadão não consegue enxergar.

Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha são, neste momento, personagens de investigações distintas e têm direito à defesa.

Mas os casos em que aparecem, somados ao R$ 1,3 bilhão de autoria oculta detectado no orçamento de 2025, ajudam a revelar algo maior que dois políticos.

O problema está nos dutos.

E, enquanto o dinheiro público puder circular sem que o verdadeiro autor da ordem apareça, a corrupção continuará encontrando espaço para abrir a torneira.

Foto: imagem gerada por IA