Capital do Brasil em Belém é reparação histórica

Texto destaca como a capitalização simbólica de Belém resgata injustiças históricas e a resistência cabana na formação do Brasil.

Publicado em: 15/11/2025 às 13:22 | Atualizado em: 15/11/2025 às 13:22

Por Dassuem Nogueira*

Durante a COP-30, a capital do país foi transferida para Belém, capital paraense. Talvez nem a deputada Duda Salabert (PDT-MG), autora da proposta, tenha ciência do simbolismo que isso representa para a antiga capital do Grão-Pará e Maranhão. 

A cidade de Belém, fundada como Forte do Presépio em 1616, foi capital do Grão-Pará e Maranhão de 1751 a 1772.

A fundação do forte e de uma capela simbolizava a estratégia militar e econômica portuguesa na defesa da exploração mercantil do território amazônico.

Um estado à parte

Quase toda a região amazônica e parte da região Nordeste, antes fora o Grão-Pará e Maranhão, um território independente do Brasil que se reportava diretamente à coroa portuguesa durante todo o período colonial.

Os estados foram dividindo-se aos poucos em função dos obstáculos de administração decorrentes da grandiosidade territorial. Mas, seguiram reportando-se a Portugal.

No processo de consolidação da formação do Brasil enquanto Estado, pós-declaração de independência, em 1822, membros da elite local paraense, indígenas caboclizados, povos indígenas e negros organizaram uma insurreição popular. E foram chamados de cabanos em razão da arquitetura das moradias dos populares.

Revolta

O sentimento da revolta contra o mandonismo branco e português e a luta por direitos e liberdades fez surgir no interior da Amazônia uma identidade comum entre povos de etnias e culturas diferentes que perceberam lutas e problemas em comum.

A Cabanagem durou, oficialmente, de 1835 a 1840. É narrada na historiografia tradicional como uma revolta regional.

No entanto, Magda Ricci, historiadora da Universidade Federal do Pará, afirma que a Cabanagem foi um movimento social e político de alcance internacional, com impacto na América Central.

Identidade cabana

E teria reverberado culturalmente na identidade regional formando, ao longo dos anos, uma sólida autoestima política.

A Cabanagem é acionada até hoje como símbolo de resistência e luta amazônica por movimentos sociais e políticos locais.

Mas, diferentemente disso, os povos amazônicos tornaram-se quase invisíveis para o território Brasil.

Reparação histórica

Foi em Belém que se instaurou o governo cabano em 1835. E logo no ano seguinte foi retomada pelo Brasil após forte bombardeio das forças regenciais. 

A repressão brasileira aos revoltosos nos estados do Grão-Pará e Maranhão foi sangrenta e cruel. Dizimou povos e perseguiu a população local. Estima-se que deixou mais de 30 mil mortos, uma baixa de 30% da população local da época.  

Tanto sangue para que o território amazônico não seguisse um rumo independente e pertencesse ao Brasil.

Por isso, chamo atenção para o fato de a antiga capital do estado do Grão-Pará e Maranhão ser, hoje, a capital do Brasil, ainda que por alguns dias, é um ato de reparação histórica com o Norte do país.

Assimetria

Brasil e a região Norte são territórios que existiram em paralelo até o momento em que os cabanos foram suprimidos e a região foi incorporada como território brasileiro. Contudo, as assimetrias regionais jamais foram superadas.

A região Norte é o lugar onde o frete grátis não vem e cuja cultura, com raras exceções, jamais é convidada para estar nas vitrines culturais do país.

A região nunca foi completamente absorvida no imaginário da nação como território brasileiro, sendo sempre acionada como Amazônia, uma entidade, eternamente à parte, distante no espaço e no tempo dos centros culturais e econômicos do país.

A ferida colonial dos povos do Norte não foi superada em relação ao Brasil. Há mágoa em observar que a Amazônia é encarada pelo próprio país como uma grande reserva de riquezas biológicas. E muito pouco como valor político e cultural.

Por outro lado, a elevada autoestima cultural e política, construída com sangue cabano, especialmente entre os paraenses, é, também insuperável e muito bonita de ver, ouvir, comer e dançar.

Referências: RICCI, Magda. “Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária: o problema do patriotismo na Amazônia entre 1835 e 1840”. Dossiê: Cidadania e Pobreza, Revista Tempo, n. 11, vol. 22, 2007.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil