Cotada para presidir Garantido, Isabelle fala de liderança e protagonismo feminino

Isabelle conversou com o BNC Amazonas sobre essa e outras possibilidades de protagonismo das mulheres no boi bumbá de Parintins

Por Dassuem Nogueira

Publicado em: 01/07/2026 às 21:00 | Atualizado em: 01/07/2026 às 21:23

Após encerrar sua história como cunhã-poranga do Boi Garantido, Isabelle Nogueira teve seu nome apontado como possível candidata à presidência da associação. A informação começou a circular nesta quarta-feira após ser publicada no blog do jornalista Hiel Levy.

Isabelle conversou com o BNC Amazonas sobre essa e outras possibilidades de protagonismo das mulheres no boi bumbá de Parintins.

Circulou a notícia de que você poderia concorrer a presidência do boi Garantido em setembro. Você confirma essa possibilidade? Existe algum diálogo concreto nesse sentido?

Não existe nenhum diálogo concreto sobre isso. Mas confesso que, nesta temporada, alguns sócios me externaram que me veem como uma liderança diante do nosso boi com a possibilidade de concorrer na eleição para presidente.

Logo que você saiu do BBB, e mesmo depois, surgiram boatos de que você poderia ingressar no mundo político, assim como fizeram outros ex-itens de boi. Você vislumbra fazer carreira pública no Legislativo ou Executivo?

Acredito que esses boatos tenham surgido pela posição que ocupo e pelos espaços que conquisto de forma genuína em defesa do nosso povo, além de toda a contribuição que busco oferecer a ele. As pessoas se enxergam em mim porque vim de uma realidade de escassez e vulnerabilidades. Venci por meio da educação e da cultura, e sou prova viva de que políticas públicas transformam vidas e contribuem, de fato, para uma sociedade melhor. Talvez seja isso que faça com que tantas pessoas me vejam como uma liderança representativa.

As nossas dores são semelhantes. Confesso que nunca planejei seguir uma carreira política. Se um dia isso acontecer, será por um propósito maior, guiado por Deus. Fico muito feliz quando jovens, adultos e idosos, de diferentes municípios do nosso estado, me enxergam como uma mulher capaz de contribuir ainda mais com o Amazonas. Mas tudo o que faço nasce de forma genuína, sem qualquer projeto ou planejamento voltado para uma carreira política. Neste momento, esse não é o meu objetivo.

Como você vê a presença das mulheres nos bois de Parintins hoje, na arena como itens e nos espaços de decisão?

A mulher é protagonista na arena do bumbódromo. Somos parte essencial do espetáculo, mas, muitas vezes, esse protagonismo não se repete fora da arena. É perceptível que as diretorias dos bois ainda são, em sua maioria, compostas por homens. E faço questão de reconhecer a importância e a contribuição que eles têm para o festival de Parintins. Mas também acredito que existem espaços em que o olhar e o toque da mulher fazem toda a diferença, especialmente no diálogo, na sensibilidade e na construção coletiva.

Por isso, acredito que nós, mulheres, podemos e merecemos ocupar ainda mais espaços em Parintins, principalmente nos bastidores dos bois, nas diretorias e até mesmo nas presidências. E não falo apenas das eleições dos bois, mas também da política, nas esferas legislativa e executiva. É importante que nós, mulheres, nos coloquemos à disposição desses espaços e tenhamos a coragem de disputar, de participar e de liderar.

Nós carregamos vivências, desafios e perspectivas que são muito próprios da nossa experiência. Muitas de nós somos matriarcas, lideramos famílias, comunidades e projetos. Temos uma forma única de contribuir para a sociedade e para esta terra. Sem diminuir a importância do papel dos homens, acredito que a presença feminina acrescenta algo singular e indispensável.

Fico muito feliz ao perceber o quanto já avançamos. Quando entrei no meu boi, em 2014, como dançarina, nós praticamente não tínhamos voz nos espaços de decisão. Hoje a realidade é diferente. Participamos de reuniões, somos ouvidas, opinamos e conquistamos um respeito que antes era muito mais difícil.

É claro que esse posicionamento, muitas vezes, ainda incomoda. Já fui chamada de “chata” simplesmente por me posicionar e defender aquilo em que acredito. Infelizmente, ainda existe uma tendência de rotular mulheres que reivindicam seus direitos ou expressam suas opiniões com firmeza. Mas isso nunca foi motivo para eu me calar.

Nós avançamos muito, mas ainda há um longo caminho pela frente. Os espaços precisam, sim, ser mais abertos às mulheres. E, quando isso não acontecer naturalmente, que nós continuemos ocupando esses lugares com competência, coragem e persistência. Porque esses espaços também são nossos por direito, e a nossa presença neles fortalece não apenas o festival de Parintins, mas toda a nossa sociedade.

Eu vejo e me comovo com as crianças que sonham com mundos mais livres que o nosso. Vejo meninas no Caprichoso e no Garantido brincando de serem pajé, tripa, apresentadoras, levantadoras, itens que são tradicionalmente pensados para meninos e homens.

O que você acha desse cenário de itens que as mulheres ainda não ocupam, mas que as meninas começam a sonhar?

O sonho de uma criança é sempre genuíno e inocente, e é muito bonito vê-las sonhando em ocupar espaços dentro dos bois, seja uma menina querendo ser pajé ou levantadora de toadas. O mais importante é que elas saibam que há espaço para todos. Acredito que também precisamos ampliar esse olhar para a participação feminina. Quem sabe, no futuro, possamos ver uma mulher como apresentadora oficial do festival de Parintins ou uma levantadora de toadas defendendo um boi de forma oficial. Isso seria um avanço muito bonito.

Esses cargos foram historicamente ocupados por homens que deram grandes contribuições ao festival, e esse legado merece todo o reconhecimento. Mas exemplos como o da Márcia Siqueira mostram que as mulheres têm talento, potência e capacidade para ocupar esses espaços. Ela é a prova de que esse sonho é possível e pode, sim, se tornar realidade.

A autora é doutora em antropologia.

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Foto: reprodução/Instagram