Cuidado! Flávio é Bolsonaro
O sobrenome é o mesmo, a genealogia é conhecida e a relação familiar é evidente. Mas não é disso que tratarei neste texto. Leia o artigo da semana de Aldenor Ferreira
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 21/03/2026 às 00:00 | Atualizado em: 20/03/2026 às 14:01
À primeira vista, a frase pode parecer redundante. Afinal, como filho de Jair Bolsonaro, Flávio também é um Bolsonaro. O sobrenome é o mesmo, a genealogia é conhecida e a relação familiar é evidente. Mas não é disso que tratarei neste texto.
Quando digo “cuidado, Flávio é Bolsonaro”, o sentido não está na relação familiar, e sim na política. A frase aponta para algo mais profundo: a continuidade de um projeto, de uma visão de mundo e de um modo de fazer política que marcaram a trajetória do bolsonarismo no Brasil.
Nos últimos tempos, Flávio Bolsonaro tem buscado construir para si uma imagem mais moderada. Em entrevistas e aparições públicas, procura demonstrar serenidade, fala com mais cautela, adota um tom aparentemente conciliador e tenta se apresentar como alguém aberto ao diálogo. É uma estratégia clara.
A linguagem importa
Em política, a linguagem importa. O tom, a postura e a maneira de se apresentar ao público frequentemente funcionam como instrumentos de reposicionamento político. Não é raro que lideranças tentem reformular sua imagem quando percebem que determinado estilo perdeu força ou passou a gerar resistência em parte da sociedade.
No caso do bolsonarismo, isso se torna ainda mais evidente após os anos turbulentos do governo de Jair Bolsonaro, marcados por conflitos institucionais constantes, ataques reiterados às instituições democráticas e um ambiente político permanentemente tensionado. Diante desse cenário, não surpreende que alguns de seus representantes tentem agora vestir uma roupagem mais moderada. Flávio Bolsonaro parece apostar exatamente nesse caminho.
A diferença de estilo entre pai e filho é perceptível. Jair Bolsonaro sempre se destacou por uma retórica agressiva, marcada por declarações impulsivas e por uma evidente dificuldade em sustentar raciocínios políticos minimamente consistentes. Seu capital político sempre esteve ligado ao confronto, à provocação e à mobilização de sentimentos de ressentimento e indignação.
Flávio, por sua vez, demonstra maior desenvoltura na arena política. Fala com mais cuidado, estrutura melhor seus argumentos e procura evitar certas explosões verbais que marcaram a figura do pai. Mas estilo não é projeto político.
O conteúdo é mesmo
E é justamente aí que reside o ponto central que precisa ser compreendido. Apesar da diferença de forma, o conteúdo permanece essencialmente o mesmo. Nas pautas fundamentais que definem o bolsonarismo – visão sobre direitos humanos, relação com minorias sociais, postura diante da política ambiental, concepção de soberania nacional e ataques recorrentes aos servidores públicos – não há sinais reais de ruptura.
Ao contrário. A linha política permanece alinhada ao mesmo campo ideológico que marcou o bolsonarismo desde sua ascensão. Trata-se de uma visão profundamente conservadora no sentido mais duro do termo – e frequentemente reacionária – que enxerga a política como espaço de combate permanente contra adversários definidos como inimigos. Essa lógica foi uma das marcas centrais do bolsonarismo.
Não se tratava apenas de discordância política, algo normal e saudável em uma democracia. Tratava-se da construção de uma narrativa na qual determinados grupos sociais – mulheres, movimentos sociais, povos indígenas, ambientalistas, servidores públicos e setores da academia – eram constantemente transformados em alvos de hostilidade política. Esse tipo de estratégia não desaparece apenas porque o tom de voz muda ou o discurso se torna mais polido.
Outro elemento que ajuda a compreender o fenômeno é o histórico de controvérsias que envolve a trajetória política de Flávio Bolsonaro. Assim como ocorreu com o pai ao longo da carreira parlamentar, também existem questionamentos públicos sobre a origem e o crescimento de seu patrimônio ao longo dos anos.
As “rachadinhas”
Não cabe aqui antecipar julgamentos judiciais. Mas é inegável que as suspeitas e investigações que cercaram episódios como o chamado caso das “rachadinhas” contribuíram para lançar sombras sobre essa trajetória política.
Esses episódios fazem parte do contexto que ajuda a entender por que tantos brasileiros observam com cautela qualquer tentativa de rebranding político dentro do bolsonarismo. A história recente recomenda prudência.
Na política contemporânea, a construção de imagem se tornou um elemento central das estratégias eleitorais. Campanhas são cuidadosamente planejadas, discursos são calibrados e personagens políticos são constantemente reposicionados diante do público. Nada disso é novo.
Mas também é verdade que, por trás das estratégias de marketing, permanecem projetos políticos concretos. É por isso que a frase “cuidado, Flávio é Bolsonaro” não pretende ser uma provocação gratuita. Trata-se de um alerta político. Um convite à observação crítica. Uma lembrança de que, muitas vezes, mudanças de estilo não significam mudanças de conteúdo.
Considerações finais
Em tempos de redes sociais, discursos ensaiados e marketing político sofisticado, distinguir aparência e essência tornou-se um exercício fundamental para qualquer sociedade democrática.
Porque, no fim das contas, a política não se mede apenas pelo tom das palavras, mas pelas ideias que se defendem e pelo projeto de país que se pretende construir.
*O autor é sociólogo.
Arte: Gilmal
