O Brasil não é pobre porque ajuda os pobres

Plínio Coêlho defende que o Brasil não é pobre porque ajuda os pobres, mas porque concentra riqueza e mantém profundas desigualdades.

Getúlio, Lula e desenvolvimento

Por Plinio Cesar Coêlho*

 

Publicado em: 13/07/2026 às 11:41 | Atualizado em: 13/07/2026 às 11:41

Dizer que o Brasil é pobre porque o Estado “banca os pobres” é uma inversão completa da realidade. O pobre não é a causa da pobreza brasileira; é sua principal vítima.

O Brasil possui uma das maiores economias do planeta e aparece, pelas projeções internacionais para 2026, entre os dez maiores PIBs nominais do mundo. Em 2025, a economia brasileira produziu R$ 12,7 trilhões e cresceu 2,3%.

Portanto, o problema fundamental do país não é a inexistência de riqueza, mas a maneira profundamente desigual como essa riqueza é apropriada e distribuída.

Também não há sustentação para afirmar que o governo Lula esteja conduzindo o Brasil a um processo geral de empobrecimento. Os números não indicam uma economia em desmoronamento. Em 2024, o PIB cresceu 3,4%; em 2025, avançou mais 2,3%.

Isso não significa que todos os problemas econômicos tenham sido resolvidos, nem que o governo esteja acima de críticas. Significa apenas que não se pode substituir os fatos por um discurso ideológico construído para responsabilizar os pobres, os trabalhadores e as políticas sociais pelos problemas nacionais.

Os indicadores sociais também contrariam a ideia de que ajudar os pobres estaria empobrecendo o Brasil. Entre 2023 e 2024, cerca de 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza, enquanto 1,9 milhão deixou a extrema pobreza.

A proporção de brasileiros em situação de pobreza caiu de 27,3% para 23,1%, e os níveis de pobreza e extrema pobreza registrados em 2024 foram os menores da série histórica utilizada pelo IBGE. O próprio instituto estimou que, sem os benefícios sociais, a extrema pobreza subiria de 3,5% para 10% da população.

O Brasil produz riqueza, mas distribui muito mal

Portanto, o grande problema brasileiro não é o Estado gastar demais com os pobres. O problema é uma sociedade que naturalizou a concentração de riqueza e transformou qualquer política destinada aos trabalhadores em ameaça à economia.

Quando o Estado oferece crédito subsidiado, proteção de mercado, incentivos fiscais, infraestrutura, perdão de dívidas ou financiamento público ao empresariado, essas medidas são apresentadas como políticas de desenvolvimento.

Porém, quando o mesmo Estado garante alimentação, salário mínimo, previdência, educação, saúde ou transferência de renda aos mais pobres, imediatamente surgem aqueles que denunciam o “assistencialismo” e o suposto excesso de gastos sociais.

O Bolsa Família, por exemplo, não representa uma política de enriquecimento ou acomodação dos seus beneficiários. É uma transferência modesta destinada a impedir que famílias pobres passem fome e permaneçam excluídas de condições mínimas de existência.

Estudo do Ipea mostrou que aproximadamente 70% dos recursos do programa alcançavam os 20% mais pobres. Mesmo custando, no período analisado, cerca de 0,5% do PIB, o programa contribuiu para reduzir a pobreza em 15% e a extrema pobreza em 25%.

Chamar Lula de “neto de Getúlio Vargas” com intenção depreciativa também revela um profundo desconhecimento da história brasileira. Getúlio Vargas não foi responsável pelo atraso do Brasil. Ao contrário, foi o líder civil da Revolução de 1930, movimento que rompeu com a ordem política dominada pelas oligarquias agrárias e marcou o início de uma profunda transformação econômica, social e institucional. O país começou a superar a velha estrutura da República do café com leite e a construir um Estado nacional mais centralizado, capaz de conduzir um projeto de industrialização.

Getúlio Vargas e a construção do Brasil industrial

Isso não significa transformar Getúlio em santo ou ignorar suas contradições. Vargas governou parte do tempo como ditador, fechou o Congresso, restringiu liberdades e controlou organizações sindicais. Mas nenhuma análise historicamente séria pode apagar seu papel na formação do Brasil industrial.

Durante seus governos foram criados ou estruturados organismos e empresas fundamentais, como a Companhia Siderúrgica Nacional, o Conselho Nacional do Petróleo, a Fábrica Nacional de Motores e, posteriormente, a Petrobras. Seu projeto ajudou a deslocar o Brasil de uma economia essencialmente agrária e exportadora para uma economia urbana e industrial.

A Consolidação das Leis do Trabalho, promulgada em 1943, reuniu e sistematizou direitos e normas que também resultaram de décadas de organização e luta dos trabalhadores. A CLT não foi uma dádiva concedida espontaneamente pelo governante, mas tampouco foi a responsável pelo atraso econômico brasileiro.

Ela representou uma tentativa de institucionalizar a relação entre capital e trabalho, estabelecer direitos mínimos e impedir que a industrialização nacional fosse construída exclusivamente sobre a exploração ilimitada da força de trabalho.

É preciso desmistificar esse discurso ideológico segundo o qual qualquer política destinada a beneficiar o trabalhador prejudica o desenvolvimento. Historicamente, o Estado brasileiro esteve muito mais próximo dos interesses do capital do que das necessidades do trabalho.

O Estado financiou empresas, protegeu setores econômicos, construiu estradas, portos e sistemas de energia, assumiu riscos privados e ofereceu incentivos tributários. Tudo isso foi considerado necessário para a acumulação e a expansão do capital.

Entretanto, quando o trabalhador reivindica salário, previdência, jornada limitada, férias, proteção contra demissão arbitrária ou melhores condições de vida, seus direitos são frequentemente apresentados como custos que impedem o crescimento.

Desenvolvimento depende de capital e trabalho

O capital precisa crescer. As empresas precisam investir, produzir, inovar, gerar empregos e obter resultados. Mas não existe desenvolvimento verdadeiro quando apenas os lucros, os dividendos e a renda do capital aumentam, enquanto os salários permanecem comprimidos e os trabalhadores perdem poder de compra.

O crescimento econômico que beneficia somente uma parcela da sociedade pode elevar o PIB, mas não constrói uma nação socialmente desenvolvida.

Um país somente se desenvolve econômica, social e politicamente quando dois vetores caminham juntos: o crescimento da renda do capital e o crescimento da renda do trabalho. Quando apenas o capital prospera, o resultado é concentração de riqueza.

Quando os trabalhadores também participam dos ganhos de produtividade e do crescimento da economia, ampliam-se o consumo, o mercado interno, a arrecadação, a produção e as possibilidades de investimento. O trabalhador não é apenas um custo na contabilidade de uma empresa; é também consumidor, cidadão e participante da construção da riqueza nacional.

Foi justamente nesse campo que o trabalhismo brasileiro procurou atuar. Getúlio Vargas não rompeu com o capitalismo nem eliminou os conflitos entre empresários e trabalhadores.

Seu projeto buscou organizar e mediar esses conflitos por meio do Estado, reconhecendo que uma sociedade industrial não poderia se sustentar indefinidamente sobre uma massa de trabalhadores sem direitos, sem proteção e sem renda suficiente para consumir parte dos bens que produzia.

Nas últimas três décadas, o Brasil também não permaneceu imóvel. O país consolidou o controle da hiperinflação, ampliou a escolarização, fortaleceu o Sistema Único de Saúde, expandiu universidades e institutos federais, diversificou seus mercados internacionais e se tornou uma potência agrícola, energética, industrial e exportadora.

Houve crises, recessões, avanços e retrocessos, sob governos de diferentes orientações. A história brasileira não pode ser reduzida à afirmação simplória de que tudo o que deu errado foi responsabilidade de Getúlio Vargas e Lula, enquanto tudo o que deu certo teria surgido espontaneamente da ação do mercado.

Corrupção e desigualdade travam o desenvolvimento

Uma das principais causas da dualidade entre pobreza e concentração de riqueza no Brasil é a corrupção. Ela retira recursos que deveriam financiar saúde, educação, moradia, infraestrutura e políticas de desenvolvimento, ao mesmo tempo que favorece grupos econômicos, agentes públicos e interesses privados que se apropriam do Estado.

A corrupção pode alcançar prefeituras, câmaras municipais, governos estaduais, assembleias legislativas, órgãos federais, empresas, contratos públicos e instituições do sistema de Justiça. Ela encarece obras, destrói políticas públicas, amplia as desigualdades e corrói a confiança da população.

Por isso, deve ser investigada e punida onde quer que ocorra, independentemente de partido, ideologia, cargo, poder econômico ou sobrenome.

Entretanto, a corrupção não atua isoladamente. O atraso brasileiro também decorre da concentração histórica da renda e da terra, da desigualdade educacional, de um sistema tributário que pesa proporcionalmente mais sobre os pobres, da baixa produtividade, da precariedade da infraestrutura, dos privilégios corporativos, da sonegação e da captura de parcelas do Estado por interesses privados. Combater a pobreza exige enfrentar simultaneamente a corrupção e essas estruturas que produzem e reproduzem a desigualdade.

O Estado brasileiro não quebra quando coloca comida na mesa de uma família pobre. Ele se enfraquece quando tolera corrupção, sonegação, desperdícios, privilégios e apropriação privada dos recursos públicos. Responsabilizar os pobres pela pobreza é uma maneira conveniente de proteger aqueles que historicamente se apropriaram da maior parte da riqueza nacional.

Getúlio Vargas não foi um santo, e Lula não está acima de críticas. Ambos devem ser avaliados por seus atos, seus acertos, seus erros e suas contradições. Mas transformar os direitos trabalhistas e as políticas de combate à fome nas causas do atraso nacional é uma falsificação histórica e econômica.

O Brasil não é pobre porque ajuda os pobres. É um país rico que ainda permanece profundamente injusto porque não conseguiu fazer com que o crescimento da renda do capital fosse acompanhado, na mesma direção, pelo crescimento da renda do trabalho.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

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