Eloy Terena, o antropólogo
Advogado e antropólogo premiado, Eloy Terena assume o Ministério dos Povos Indígenas levando ao centro do governo a força política, intelectual e histórica da luta dos povos originários no Brasil.
Por Dassuem Nogeuira*
Publicado em: 31/03/2026 às 14:15 | Atualizado em: 31/03/2026 às 14:15
Luiz Henrique Eloy Amado, do povo Terena, 38 anos, torna-se o segundo ministro indígena da história do Brasil, ao assumir o Ministério dos Povos Indígenas, o que deverá ser oficializado nesta terça-feira, 31/03.
Eloy Terena, como é conhecido, nasceu na aldeia Ipegue, no município de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul.
Além de protagonista do movimento indígena brasileiro, é advogado e antropólogo premiado por sua tese de doutorado sobre a identidade Terena.
Abaixo, faço uma breve apresentação da tese, mas é um trabalho que vale muito a pena ser lido em sua completude, pois possui uma rica articulação entre as duas formações de Eloy Terena.
Advogado
Como advogado, Eloy Terena é doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-doutorado em ciências sociais pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, da França.
Teve destacada atuação quando advogou pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) em representações no Supremo Tribunal Federal, na Corte Interamericana de Direitos Humanos e no Tribunal Penal Internacional, especialmente na defesa dos povos indígenas durante a pandemia de covid-19, em 2020.
Antropólogo
Eloy Terena também é doutor em Antropologia Social, pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Sua tese de doutorado, defendida em 2019, recebeu menção honrosa na edição 2020 do prestigioso Prêmio de Excelência Acadêmica da Associação Nacional Brasileira de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).
A tese foi publicada como livro, em 2020, com o título “Vukápanavo – O despertar do povo Terena para seus direitos: movimento indígena e confronto político”.
Antropologia brasileira
No Brasil, o novo fôlego do pensamento antropológico está diretamente ligado ao ingresso de indígenas, negros, quilombolas e pessoas da comunidade LGBTQIA+ nas universidades.
Tal cenário é fruto da consolidação das políticas de ações afirmativas no ensino superior, incluindo a pós-graduação e tem resultado em universidades mais representativas da diversidade social do país.
Na antropologia indígena brasileira, a produção de antropólogos e antropólogas indígenas reflete essa nova e bem-vinda realidade, que dialoga e enriquece correntes de pensamento anteriormente estabelecidos.
Os Terena
Os Terena possuem uma das maiores populações indígenas do país, com 19.851 indivíduos, falantes de língua do tronco Aruak. Mantém um contato intenso e antigo com a população regional.
Os homens terena formam legiões de cortadores de cana-de-açúcar que periodicamente se deslocam para o trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar e álcool. E as mulheres são vendedoras nas cidades do Mato Grosso do Sul.
Tal contexto favorece a atribuição de estereótipos como “aculturados” e “índios urbanos”.
Identidade
A tese de Eloy Terena está inserida em uma discussão em torno da identidade indígena de seu povo, que, como muitas etnias, em intensa e tensa relação com a sociedade nacional, teve sua identidade indígena questionada em meio a conflitos fundiários no Mato Grosso do Sul.
Para defender-se dos ataques às suas terras e modos de vida, os Terena organizaram-se em movimento político, frequentemente deslegitimado como não genuíno.
Eloy Terena defende que essa não é uma reação tardia nem uma “importação” de modelos externos de mobilização, mas o resultado histórico de processos prolongados de contato, dominação, negociação e reinterpretação identitária.
O vukápanavo
Vukápanavo, significa “despertar” na língua terena e, no contexto político, é usado para designar uma consciência política coletiva que resulta não apenas como necessidade de defesa contemporânea do território, reconhecimento e direitos, mas da longa experiência colonial e do regime tutelar do Estado.
O autor apresenta a identidade terena não como algo dado pela cultura, mas como processual, histórica e estratégica.
Nesse sentido, a tese de Eloy Terena dialoga com pressupostos de João Pacheco de Oliveira, referência para a etnologia do contato. Para Pacheco, o contato e o conflito não enfraquecem, simplesmente, os povos indígenas, mas provoca neles a reinvenção.
Por fim, a tese conclui que o despertar não ocorre isoladamente, mas em relação direta com o Estado, o direito, o agronegócio, a sociedade envolvente e outros povos indígenas organizados em um propósito comum.
Antropologia indígena
A produção dos antropólogos indígenas, como Eloy Terena não tem apenas importância metodológica, mas política porque expressam o direito de produzir conhecimento legítimo a partir de perspectivas em primeira pessoa.
Ao mesmo tempo, sua produção corrobora para a luta política, apontando a proteção dos territórios enquanto condição primordial de existência.
Referência:
TERENA, Eloy. Vukápanavo, o despertar do povo Terena para os seus direitos: Movimento indígena e confronto político, E-papers, 2020.
*A autora é antropóloga.
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