Fake news como estratégia política!
Para Aldenor Ferreira, a desinformação não é um desvio: é um método. Um modelo de negócio político que precisa ser enfrentado como crime contra a democracia.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 18/04/2026 às 00:00 | Atualizado em: 25/04/2026 às 06:58
Fake news como estratégia política não é uma hipótese, mas, sim, uma realidade que estrutura o bolsonarismo. Sem fake news, o bolsonarismo morre. A afirmação pode soar dura, mas ela se sustenta em evidências acumuladas ao longo dos últimos anos.
Ao observar o funcionamento daquilo que se convencionou chamar bolsonarismo, torna-se cada vez mais evidente o papel central das fake news como instrumento político. Não se trata de um exagero retórico, mas da constatação de que a desinformação deixou de ser um efeito colateral da política para se tornar um de seus principais mecanismos de ação.
O que está em jogo não é a circulação ocasional de notícias falsas, algo que sempre existiu em maior ou menor grau. O que se consolidou no Brasil recente foi um sistema organizado de produção, disseminação e monetização da mentira. Um método deliberado, estruturado e, sobretudo, financiado.
Público-alvo
Nesse contexto, a mentira não surge por acaso. Agentes políticos a fabricam com objetivo, direcionamento e público-alvo definidos. Redes digitais a impulsionam, influenciadores a replicam e, muitas vezes, uma lógica de opacidade protege seus financiadores. Trata-se de uma engrenagem que combina tecnologia, política e interesses econômicos.
Levantamentos recentes, como o produzido pelo portal ICL, que sistematizou dezenas de fake news amplamente difundidas no país, ajudam a revelar a dimensão do problema. Não estamos falando de episódios isolados, mas de narrativas repetidas, recicladas e mantidas em circulação mesmo após terem sido amplamente desmentidas.
Esse padrão indica algo fundamental: a mentira, nesse caso, não é um erro, mas, sim, uma estratégia. E, como estratégia, cumpre funções claras. Ela mobiliza afetos, produz indignação, reforça identidades políticas e, sobretudo, desorganiza o debate público ao embaralhar os critérios de verdade.
Desinformação como negócio
Há, ainda, um elemento frequentemente negligenciado: a desinformação também é um negócio. Muitos operadores desse sistema acumulam visibilidade, engajamento e recursos financeiros. A lógica das plataformas digitais, baseada na atenção e no alcance, acaba premiando conteúdos que provocam reação, independentemente de sua veracidade.
Diante disso, torna-se inevitável enfrentar uma questão central: até que ponto uma democracia pode tolerar a utilização sistemática da mentira como ferramenta política?
Se aceitarmos que eleições devem ser disputadas com base em informação qualificada, debate público e disputa de projetos, então a resposta parece evidente. Não se pode tratar a produção deliberada de fake news como simples opinião ou liberdade de expressão. Essa prática compromete o próprio funcionamento do sistema eleitoral.
Considerações finais
Por isso, é necessário avançar no debate sobre responsabilização. A disseminação intencional de desinformação, especialmente em contextos eleitorais, exige enquadramento jurídico mais rigoroso. Não se trata de um deslize, mas de uma conduta que atenta contra a integridade democrática.
Sem esse enfrentamento, o ambiente público se degrada e a mentira passa a competir em vantagem com a verdade e, muitas vezes, vence. Com esse enfrentamento, ao contrário, desmonta-se um dos pilares que sustentam determinadas formas de fazer política.
E é justamente aí que reside o ponto central: quando a mentira deixa de ser um recurso disponível, certas estratégias políticas perdem sua base de sustentação.
Sem fake news, o bolsonarismo morre!
O autor é sociólogo*
