Flávio Bolsonaro e a lógica de clã nas eleições
Projeto de poder familiar e a lógica de clã dos Bolsonaro desafiam a República e a democracia. Segundo o articulista, a reeleição de Lula é apontada como o contraponto necessário para proteger as instituições e a pluralidade política no país.
Publicado em: 13/12/2025 às 01:01 | Atualizado em: 12/12/2025 às 05:48
A decisão do Partido Liberal (PL) de lançar Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República em 2026, sob orientação direta de Jair Bolsonaro, explicita o esforço de uma família para definir os rumos da direita e da extrema-direita no Brasil. Trata-se de uma tentativa explícita de transformar a sucessão presidencial em um arranjo quase hereditário.
Não se sabe ao certo se a candidatura de Flávio Bolsonaro é apenas um balão de ensaio ou uma aposta real, mas o simples fato de essa discussão existir já revela a aberração institucional que se tenta normalizar.
O Brasil não é uma monarquia na qual membros da família real assumem naturalmente o comando do país; é uma república que deveria se orientar pela pluralidade, pela discussão de ideias e pela alternância democrática e não pela lógica de clã.
Os Bolsonaro e a justiça
O mais grave é que todos os principais personagens dessa família respondem ou responderam a investigações, denúncias ou processos na Justiça. A lista é conhecida: acusações de peculato, as famosas “rachadinhas”, uso indevido de recursos públicos em esquemas irregulares, episódios reiterados que levaram o Ministério Público do Rio de Janeiro a apontar indícios de organização criminosa.
Em qualquer democracia madura, isso seria suficiente para afastar qualquer pretensão política. Aqui, porém, tenta-se fazer do sobrenome um projeto de poder. É um desvio antirrepublicano evidente: não se trata de debate programático, mas da tentativa de transformar o Estado em extensão privada de uma família.
A direita e a extrema-direita brasileira, ao permitir que seus rumos sejam definidos quase exclusivamente por esse núcleo familiar, renuncia à sua própria possibilidade de renovação. Reduz-se a pluralidade interna, estreita-se o horizonte político e elimina-se, na prática, qualquer alternativa viável que não carregue o mesmo sobrenome.
Isso empobrece o debate público e enfraquece a democracia, pois coloca um grupo familiar acima das instituições e da própria sociedade.
A reeleição de Lula
Diante desse cenário, a alternativa que melhor preserva o equilíbrio institucional e oferece estabilidade ao país é a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Não se trata de uma escolha apenas partidária, mas de uma defesa concreta da República Federativa do Brasil.
As pesquisas recentes já indicam a possibilidade de vitória de Lula, especialmente em cenários em que o bolsonarismo insiste em se apresentar por meio de herdeiros políticos. Reeleger Lula, neste contexto, significa afirmar que o Brasil não aceitará uma sucessão baseada em vínculos familiares, mas sim em projetos de país.
Se normalizarmos a ideia de que o protagonismo político pode ser herdado por parentes diretos de quem já tentou corroer as instituições, abriremos precedentes perigosíssimos. A democracia não pode se submeter aos interesses de uma família que, além de responder a questionamentos judiciais significativos, insiste em transformar o país em um palco de sua própria disputa interna por protagonismo.
Considerações finais
Concluo afirmando que a defesa da República exige dizer não à lógica de clã e reafirmar que o comando do país deve ser decidido pelo voto, pela responsabilidade e pela pluralidade, jamais por herança.
Por isso, neste momento crítico, a melhor resposta ao avanço dessa distorção está bem definida: fortalecer o caminho democrático e assegurar a reeleição de Lula. Não por idolatria, não por conveniência, mas por compromisso com a própria ideia de Brasil enquanto país democrático e soberano.
*O autor é sociólogo.
Arte: Gilmal
