Neuton Corrêa*

 

O futebol brasileiro como expressão e identidade nacional, a cada mundial, perde força. Mas, como tal, expressa muito de uma filosofia ultrapassada do esporte mais popular do Brasil e da cultura social e política do País.

O jogador Neymar e o seu “cai-cai” podem ser colocados como exemplos dessa filosofia e dessa cultura.

Enquanto filosofia, Neymar é a manifestação do conflito existencial de uma sociedade em busca de um herói nacional.

Nesse caso, o talentoso jogador incorpora em sua atuação elementos do pensamento brasileiro, como, por exemplo, o individualismo que se confronta com o coletivo futebol moderno.

É da frustração desse confronto que flui, notadamente, a cultura política nacional do “se dar bem”, tentando vencer o adversário, enganando a arbitragem, os torcedores e os bilhares de torcedores eletrônicos com a novela do cai-cai.

As próprias regras do futebol que estrearam na Copa da Rússia atacam esse tipo de conduta. A catimba sucumbiu com o árbitro de vídeo.

Fora dos gramados, nosso candidato a herói nacional não articula um pensamento coletivo, não formula uma ideia crítica. Aceita passivamente a bajulação da mídia.

No futebol, nunca será um Pelé nem um Ronaldo. Frustrou a torcida brasileira. Na política, nunca será um Romário, porque lhe falta personalidade e atitude.

Jogar bem não basta. A genialidade é aquilo que está para além do normal.

Ajudaria mais o Brasil se, ao invés do culto ao personalismo, Neymar dedicasse uma frase sobre a situação política e social do Brasil e/ou outros temas mundiais.

O futebol jogado pelas seleções finalistas são a filosofia e a cultura moderna que dão certo até aqui, são a negação do individualismo e a vitória das práticas coletivas.

O heroísmo não se nega, mas ele precisa fluir desse ambiente de construção plural como novo valor social. Esse precisa ser o desafio do Brasil.

 

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

 

*O autor, fundador do site BNC AMAZONAS, é jornalista, filósofo e mestre em Sociedade e Cultura pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).