A vulgaridade
Flávio Lauria critica a vulgaridade como marca da vida pública brasileira, associando-a à brutalidade, à ignorância e ao desprezo pela ética.
Por Flávio Lauria*
Publicado em: 19/05/2026 às 12:12 | Atualizado em: 19/05/2026 às 12:12
A censura voltando, a economia estagnada, a política fervendo e eu vou falar de que? Da vulgaridade. Do império da vulgaridade que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos, quero falar do mau gosto existencial. Do que há de vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.
O vulgar fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele(a). Enganar é ok. Agredir é ok, gentileza, educação, delicadeza, para um(a) convicto(a) e ruidoso(a) vulgar, é tudo coisa de maricas.
O(a)vulgar manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele(a). É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e a brutalidade para ser respeitado(a).
A vulgaridade detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Seguro(a) de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões.
A vulgaridade não tem vergonha na cara. Ele(ela) quer ser autoridade para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado(a) para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado(a). Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os vulgares fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.
Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo o que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país. Coloquei nos dois gêneros porque vulgaridade não tem sexo. Qualquer semelhança com pessoas não é mera coincidência.
O autor é mestre e doutor em administração pública*.
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