Novo El Niño ameaça Amazônia ainda frágil da última seca

O retorno do fenômeno El Niño em 2026 impõe novos riscos à Amazônia, que ainda sofre os impactos severos das secas de 2023-2024.

Publicado em: 19/07/2026 às 09:38 | Atualizado em: 19/07/2026 às 09:38

Apenas dois anos após enfrentar secas históricas, a floresta amazônica volta a ser ameaçada pelo retorno do El Niño, confirmado em junho pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa). O fenômeno, conhecido por provocar severas estiagens na região Norte do Brasil, atinge o bioma em um momento crítico de vulnerabilidade.

Um estudo publicado na revista científica Pnas estima que 53,7% das áreas intactas da Amazônia afetadas pela seca histórica de 2023-2024 não conseguirão se recuperar mesmo após sete anos do evento extremo, evidenciando que o intervalo entre as crises climáticas está cada vez menor.

O monitoramento de satélites e as análises de especialistas revelam o impacto progressivo dos extremos climáticos sobre a floresta:

Histórico de regeneração

Dados de três décadas indicam que a Amazônia tem levado mais tempo para recuperar sua umidade e biomassa a cada novo evento.

Após a seca de 2005, a floresta levou cinco anos para se restabelecer; após a de 2010, três anos; e, no El Niño de 2015, o tempo de regeneração saltou para sete anos.

A gravidade do último biênio

A seca de 2023-2024 foi uma das mais severas desde 1992, combinando o efeito do El Niño com o aquecimento das águas do Atlântico Norte. O impacto reduziu drasticamente os leitos dos rios, levando o rio Negro ao seu nível mais baixo em 122 anos (medido em Manaus em outubro de 2024), além de sumir com igarapés e secar o rio Solimões.

O fator La Niña e a falsa recuperação

Embora o MapBiomas tenha registrado que a superfície de água na Amazônia em 2025 ficou 2,6% acima da média histórica devido às chuvas da La Niña, cientistas alertam que a cheia dos rios não significa o retorno das funções vitais da floresta, como os patamares adequados de evapotranspiração e troca de carbono.

Perda de biomassa e emissão de carbono

Pesquisadores do Inpe apontam que a recorrência de secas faz com que a floresta perca progressivamente a capacidade de reciclar água e manter seu microclima. Estudos anteriores mostram que a mortalidade de árvores pós-seca pode transformar temporariamente a Amazônia em uma fonte emissora de carbono, em vez de um sorvedouro.

A resiliência natural da mata é severamente reduzida quando os efeitos do clima se somam a fatores antrópicos, como o desmatamento, incêndios florestais e a extração seletiva de madeira.

A remoção da vegetação nativa impede a infiltração de água nos lençóis freáticos, deixando o solo desprotegido. A porção sul do bioma, na transição para o Cerrado, é a mais afetada por essa combinação por ser a área com maior taxa de desmatamento.

O diagnóstico dos cientistas reforça que, embora a Amazônia possua uma resiliência interna significativa contra o aquecimento global, o bioma encontra-se indefeso diante da velocidade com que os novos extremos climáticos se repetem.

Com o avanço do novo El Niño neste ano, a capacidade da floresta de atuar como reguladora climática fica comprometida.

Especialistas advertem que a mitigação desses impactos e a sobrevivência do ecossistema dependem obrigatoriamente do combate imediato às atividades humanas predatórias, visto que a conversão e a substituição do bioma reduzem a zero sua capacidade natural de adaptação.

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