Amazônia: arqueólogos e indígenas mapeiam civilizações antigas com tecnologia

Eles já mapearam mais de 20 cidades de até 1.500 anos perdidas na floresta.

Publicado em: 30/11/2025 às 10:31 | Atualizado em: 30/11/2025 às 10:33

A Amazônia guarda cidades inteiras sob a floresta e os próprios povos da região estão ajudando a revelá-las. No Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso, kuikuros e pesquisadores já mapearam mais de 20 centros urbanos de até 1.500 anos, usando drones e sensores de laser.

Viola Kuikuro, 25, pilota um drone sobre a aldeia Ipatsé. Ele treina para usar tecnologia como ferramenta de memória ancestral, parte do projeto que forma indígenas como protagonistas da pesquisa arqueológica.

A líder científica, Helena Lima, do Museu Paraense Emílio Goeldi, explica o método simples: “Tudo aqui tem história. Os kuikuros nos mostram os caminhos. Nós só precisamos escutar.”

O salto veio com o Lidar (Light Detection and Ranging): pulsos de laser varrem o solo e desenham mapas tridimensionais, expondo praças, estradas e trincheiras enterradas sob a copa da floresta amazônica. Em bioma denso, a tecnologia revoluciona a arqueologia.

No Xingu, não são satélites apontando para indígenas: os indígenas decidem onde olhar. Locais citados pela tradição oral se tornam pontos de investigação.

“Tem muita história e muito lugar para estudar”, diz Sepé Kuikuro.

A parceria começou nos anos 1990, com o arqueólogo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida (EUA). Ele não encontrou os sítios sozinho. Os kuikuros o levaram.

Em 2003, publicou na Science um dos artigos mais importantes sobre a região — em coautoria com o cacique Afukaká Kuikuro. A pesquisa mostrou cidades-floresta complexas, entre 500 d.C. e 1770 d.C., com dezenas de milhares de habitantes.

Esses centros tinham praças circulares, valas defensivas e redes de estradas retas conectando aldeias. A madeira desapareceu, mas as marcas no solo permanecem.

As evidências derrubaram a ideia de uma Amazônia “vazia”, lembra o antropólogo Carlos Fausto, do Museu Nacional. A floresta sempre sustentou sociedades desenvolvidas, não apenas pequenos grupos nômades.

Para os kuikuros, o estudo é poder. “A pesquisa fez os brancos acreditarem em nós”, diz Afukaká. “Mostrou que estamos aqui há muito tempo.”

Helena rejeita isolamento acadêmico: “Uma arqueologia pura não faz sentido. Não estamos aqui só para cavar buracos e aprender história.”

Os dados ficam em portal gerido pela Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu. Nenhuma informação vira pública sem autorização indígena. O líder Daniel Kalutata Kuikuro teme repetição do trauma de 2018, quando gravuras sagradas foram destruídas por invasores.

Hoje a arqueologia vira arma política de proteção territorial. “Se atacarem nossas terras, mostramos que estamos aqui há séculos”, afirma Kumessi Waurá Kuikuro.

A ambição vai além: indígenas liderando pesquisas. Mutuá Mehinaku, mestre formado, resume: “Precisamos de treinamento para sermos líderes, não assistentes.”

O custo é alto: distância das universidades, abandono da vida comunitária e sobrevivência na cidade. Ainda assim, o projeto avança. Viola, o piloto, conquistou bolsa para ingressar no bacharelado de arqueologia indígena da Universidade de Brasília (UnB).

Ele ergue o drone após o último voo do dia. “De pouquinho em pouquinho.” A Amazônia começa a contar sua história pelas próprias mãos.

Leia na íntegra na reportagem de Sofia Moutinho, na Folha de S. Paulo.

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Foto: Pablo Albarenga/divulgação