Busca arqueológica da OpenAI na Amazônia ignora direito de habitantes
Ação do MPF questiona concurso de inteligência artificial por usar dados de terras tradicionais e indígenas sem consentimento prévio
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 06/07/2026 às 19:56 | Atualizado em: 06/07/2026 às 19:56
O uso de tecnologias de ponta na Amazônia reacendeu um debate histórico sobre a soberania dos povos originários e o respeito a quem vive na floresta.
A competição “Open to Z Challenge”, lançada pela OpenAI, a desenvolvedora do ChatGPT, ofereceu até US$ 250 mil para quem identificasse novos sítios arqueológicos na região usando inteligência artificial.
Contudo, a iniciativa atropelou uma etapa fundamental e garantida por lei: as comunidades indígenas e tradicionais não foram consultadas sobre a utilização de informações e dados referentes às suas próprias terras.
A exclusão dos habitantes locais nas tomadas de decisão motivou o Ministério Público Federal (MPF) a instaurar inquérito contra a gigante de tecnologia.
Para o órgão, o concurso ignora o direito de consulta prévia e atua como uma espécie de “busca por tesouros”, que objetiva extrair conhecimento e trabalho gratuito de voluntários sob o pretexto de fazer ciência arqueológica.
A atitude reforça um padrão excludente, no qual moradores locais são invisibilizados por projetos internacionais que impactam diretamente seus territórios.
Leia mais
Filme destaca sítios arqueológicos esquecidos em Itacoatiara, no Amazonas
Riscos ao patrimônio nacional
Além do desrespeito aos povos originários, o projeto gerou críticas contundentes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB).

O Iphan alertou, por meio de pareceres técnicos, que incentivar pessoas sem habilitação profissional e metodologias adequadas a localizarem sítios inéditos pode expor o patrimônio arqueológico brasileiro a saqueamentos, vandalismo e exploração ilegal.
Em resposta aos riscos apontados, a AGU expediu notificação extrajudicial para que a empresa preste esclarecimentos detalhados sobre o tratamento de dados sensíveis e a compatibilidade do concurso com as normas brasileiras.
O material já está sendo avaliado por procuradores e especialistas técnicos do governo.
A OpenAI defendeu-se, em nota. Leia mais no Metrópoles.
Foto: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas
