COP-30: trabalhadores admitem crise climática, mas defendem manter petróleo

Trabalhadores do setor reconhecem a crise climática, mas defendem manter exploração de petróleo e gás até que alternativas estejam consolidadas.

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 14/11/2025 às 18:23 | Atualizado em: 14/11/2025 às 18:24

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em parceria com a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e o Instituto Clima e Sociedade (iCS), lançou nesta quinta-feira (13 de novembro), na COP-30, em Belém, no Pará, um estudo que parte da seguinte pergunta:

Quantos e quem são os trabalhadores mais diretamente afetados pela transição energética na cadeia de valor do petróleo e gás? 

Dessa forma, o estudo do Dieese, FUP e iCS traça o perfil dos profissionais da cadeia do petróleo e gás que mais sentirão os impactos da mudança para uma economia de baixo carbono

No entanto, nesse mesmo levantamento, o Dieese/FUP/iCS também quis saber a percepção das lideranças sindicais petroleiras sobre a transição energética no Brasil, o futuro do setor de óleo e gás e o aquecimento global.

Cerca de 75,5% dos entrevistados acredita que o aquecimento global e as mudanças climáticas são hoje um dos maiores problemas da humanidade.

Porém, a mesma proporção de entrevistados acha que o mundo deveria continuar explorando e produzindo mais petróleo e gás natural, até que se desenvolva melhor as alternativas energéticas.

Exploração na margem equatorial

Cerca de 83% das respostas foram favoráveis à exploração da margem equatorial, na bacia da foz do rio Amazonas. A maior parte das justificativas (47,7%) aponta para a necessidade de geração de recursos para o Brasil realizar a transição energética.

No entender do coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar, a exploração da Margem Equatorial (MEB) é importante para a segurança energética nacional e redução da dependência de importação de derivados de petróleo no longo prazo, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste.

“A região precisa, porém, ser reconhecida como área estratégica, implementando o modelo de partilha da produção”, ressalta Bacelar.

Uma das condições colocadas pela FUP é que a renda gerada pela exploração da Margem Equatorial seja majoritariamente destinada aos estados da região, de forma a promover o desenvolvimento local. Para isso, propõe a criação de um fundo subnacional.

Transição energética

Sobre o impacto nos empregos, no caso de redução da produção de óleo e gás no país em função da transição energética, o estudo do Dieese/FUP/iCS 43,3% das respostas (a maior concentração), acredita na realocação do emprego em outros setores energéticos.

De acordo com Bacelar, os trabalhadores da indústria de petróleo querem participação efetiva nas discussões de políticas para uma transição energética justa, soberana e popular.

Entre as principais sugestões apresentadas na COP-30 estão a construção de um plano estratégico de transição, elaborado em conjunto com os trabalhadores, com a garantia de capacitação profissional e geração de empregos de qualidade; ampliação de investimentos em tecnologias de baixo carbono; e promoção do desenvolvimento regional.

“É importante uma transição energética que fortaleça a negociação coletiva, o respeito aos direitos dos trabalhadores, afastando ameaças de precarização do trabalho, e que garanta o desenvolvimento sustentável”, destacou o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar,

Perfil dos trabalhadores

Segundo o economista do Dieese, Cloviomar Cararine, que apresentou a pesquisa na COP-30, a cadeia de valor do O&G (óleo e gás) gerou mais de 800 mil empregos formais no Brasil, em 2024.

A maior parte no segmento é do comércio (66,5%), seguido pela petroquímica (11,4%), E&P (7,7%), transformação (5,5%), refino (4,9) e transporte (3,9%.). A pesquisa não considera os empregos informais da cadeia.

O total de empregos formais no setor equivale ao tamanho da população de cidades como São Bernardo do Campo, uma das maiores do interior paulista, ou Uberlândia, em Minas Gerais.

Essa mão de obra se concentra no eixo Sul-Sudeste (sobretudo nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro), e na Bahia.

Mão de obra no Amazonas

No Estado do Amazonas, em 2024, havia 14.472 empregos formais pertencentes à cadeia de valor do óleo e gás. A distribuição por segmento ficou da seguinte maneira:

Transformação – 2.762

E&P – 740

Refino – 663

Petroquímica – 1.568

Transporte – 319

Comércio – 8.420

Iniciativa privada

A pesquisa observa grande participação da iniciativa privada na cadeia de O&G, com exceção do E&P (exploração e produção), refino e transportes, onde predomina a presença da Petrobrás.

O segmento é caracterizado pela alta remuneração, com metade da categoria ganhando mais de 10 salários mínimos, com trabalhadores mais velhos e jornadas menores.

Foto: divulgação