Eron Bezerra: COP30 ignora capitalismo como maior poluidor do planeta
Ex-deputado federal critica a COP30 por não debater o capitalismo como causa da crise climática, focando em "perfumaria" em vez de soluções reais.
Iram Alfaia, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 24/11/2025 às 20:03 | Atualizado em: 24/11/2025 às 20:05
A declaração final da COP30 em Belém (PA) saiu sem um “mapa do caminho” para o fim da queima de combustíveis fósseis e um plano para o desmatamento zero das florestas tropicais, as principais causas do aquecimento global.
A comunidade científica lamentou essa situação diante da gravidade da crise climática. O ex-deputado federal Eron Bezerra (PCdoB-AM) avalia que os problemas são ainda maiores.
Além da ausência dos Estados Unidos, ele diz que não houve debate sobre o capitalismo como principal responsável pela crise climática.
“É lamentavelmente. Essas duas preocupações centrais que eu levantava não apareceram. Os americanos sequer compareceram para subscrever todo e qualquer documento, portanto, lavaram as mãos para o problema”, diz Eron, que é doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Para ele, seria natural debater quem são os principais responsáveis pela emissão do CO2, o gás do efeito estufa responsável pelo aquecimento global.
“O maior responsável pela poluição ambiental é o modo de produção capitalista, especialmente a partir da Revolução Industrial no final do século 18”, afirma.
Na avaliação dele, a COP30 acabou sem esse debate. “É a causa central do problema, que tem como alternativa o socialismo. De maneira geral, busca-se perfumaria para tentar resolver a questão”, considera.
“A COP30 não tratou e nem vai tratar tão cedo desse problema de fundo, que é a alternativa do modo de produção capitalista por um outro modo de produção que seja baseado em desenvolvimento efetivo, mas sustentável, que é como tem sido procurado ser feito, por exemplo, pela China”, diz.
De acordo com ele, o país asiático tem procurado crescer de forma consistente, mas investindo pesadamente em energias renováveis, apesar de ser hoje um grande poluidor.
“Exatamente por isso tem colocado grande parte dos seus recursos para fazer uma nova base, um novo modo de produção que concilie produção e ecologia. Sem o que, naturalmente, nós vamos chegar no colapso”, prevê.
Fundo florestal
Nem o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que captou mais de US$ 5 bilhões durante a Cúpula dos Líderes, escapa das críticas do professor.
“Mesmo esse fundo que foi aprovado e que está sendo articulado é para emprestar dinheiro. Não é para colocar dinheiro na mão das comunidades, das populações tradicionais ou de qualquer outra forma de economia real para alimentar as pequenas comunidades rurais, amazônidas, africanas, etc. Não. É para endividar, para fazer empréstimos para que se desenvolva projetos teoricamente sustentáveis. Esse é o retrato final”, critica.
Amazônia
O especialista explica que a Amazônia continua sendo um importante sumidouro de carbono, absorvendo CO2 da atmosfera, mas a comunidade científica não pode se contentar apenas com essa situação.
“Precisamos lutar para preservar, conservar e ao mesmo tempo desenvolver a região”, disse Eron, para quem é preciso resolver o problema da transição energética.
“Enquanto o mundo tem uma média de 4.000 kW, média de potência instalada de energia por pessoa, aqui no interior do Amazonas tem 140 kW por pessoa. Ou seja, não dá para acender uma lamparina. Então, antes de discutir transição, nessas realidades africana, há um outro debate que é ter energia”, propõe.
Desse modo, um grupo de pesquisa da Ufam busca desenvolver tecnologias sustentáveis que permitam o desenvolvimento com o menor impacto possível e adotar ações mitigadoras.
“Dentro dessa política nós já inauguramos quatro edifícios solar e estamos concluindo o mapa solar do estado do Amazonas. Vamos apresentar uma proposta da mudança da matriz energética, da matriz elétrica, aliás, do Amazonas de fóssil para energia solar, já que nós não temos potencial eólico e nem hidráulico. O nosso principal potencial aqui renovável e o solar”, explica.
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
