Crimes ambientais explodem na BR-319 só com anúncio de obras

Ibama aponta avanço de desmatamento e madeira ilegal no sul do Amazonas após anúncio de melhoria da rodovia.

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas*

Publicado em: 30/04/2026 às 13:59 | Atualizado em: 30/04/2026 às 14:35

O avanço de crimes ambientais no entorno da BR-319, no sul do Amazonas, acendeu um novo alerta sobre os impactos da abertura e melhoria da rodovia.

Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) indicam aumento significativo de desmatamento e exploração ilegal de madeira na região, em um movimento associado à expectativa de maior trafegabilidade no chamado “trecho do meio”.

A informação dialoga com o cenário já apontado em reportagem do BNC Amazonas, que detalha o que foi liberado e o que ainda segue travado nas obras da rodovia, ampliando a pressão sobre áreas sensíveis da floresta.

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Pressão cresce com expectativa de obras

Segundo o Ibama, a região da BR-319 já é monitorada de forma contínua devido ao histórico de avanço do desmatamento ligado à perspectiva de pavimentação.

A operação recente do órgão, batizada de Maravalha, identificou um aumento da atividade criminosa, especialmente em áreas próximas à rodovia.

A leitura dos fiscais é direta: a simples sinalização de melhoria na estrada já tem efeito imediato sobre a ocupação ilegal, estimulando grilagem, extração de madeira e abertura de novas áreas.

Números da devastação

Os dados preliminares da operação revelam a dimensão do problema:

  • • 8 empreendimentos madeireiros notificados na região da BR-319
  • • 6 áreas com indícios de desmatamento e queimadas
  • • R$ 2,6 milhões em multas aplicadas
  • • 817 hectares de áreas desmatadas embargadas

Em um ponto crítico, no km 180 da rodovia, os números são ainda mais expressivos:

  • • 15 madeireiras vistoriadas
  • • 7 empresas com irregularidades notificadas
  • • Mais de 240 m³ de madeira apreendidos
  • • Cerca de 1.347 m³ de madeira ilegal destruídos
  • • R$ 946 mil em multas adicionais
  • • 4 serrarias ilegais demolidas

Os agentes também apreenderam caminhões, motosserras e maquinário pesado usado na atividade ilegal.

Exploração ilegal domina a região

O problema é estrutural. Dados do sistema Simex mostram que 43% da exploração madeireira no Amazonas ocorreu sem autorização entre 2023 e 2024, índice que coloca o estado entre os mais pressionados do país.

Na região sul, especialmente em municípios como Manicoré, Humaitá e Apuí, a extração ilegal está associada a uma cadeia de crimes que inclui:

  • • desmatamento
  • • grilagem de terras públicas
  • • invasões em terras indígenas
  • • expansão irregular da pecuária

Terras indígenas como Tenharim, Pirahã e Sepoti estão entre as áreas sob maior pressão.

Impacto direto da BR-319

A operação reforça um ponto central no debate sobre a rodovia: a infraestrutura viária funciona como vetor de ocupação desordenada quando não acompanhada de fiscalização robusta e presença do Estado.

O alerta do Ibama é claro: a expectativa de pavimentação da BR-319 já está acelerando a degradação ambiental antes mesmo da conclusão das obras.

Alerta ao poder público

O avanço dos crimes ambientais coloca pressão sobre o governo federal, o Governo do Amazonas e órgãos de controle, em meio à polêmica sobre a liberação de trechos da rodovia.

Sem um plano efetivo de governança territorial, fiscalização contínua e proteção de áreas sensíveis, a BR-319 pode repetir o histórico de outras rodovias amazônicas: abertura seguida de explosão de desmatamento.

A operação Maravalha, segundo o Ibama, integra uma estratégia nacional para conter a degradação florestal. Mas, os números indicam que a corrida ilegal pela floresta já está em curso, e tende a se intensificar.

*Com informações do Ibama/AM.

Foto: divulgação