‘O horror não foi capaz de impedir a esperança’

Em manhã de gala intelectual na Livraria Valer, a socióloga Marilene Corrêa apresenta a obra de Wilson Nogueira como "um antídoto ao apagamento", sobre o massacre no rio Andirá.

Wilson Nogueira e Marilene Corrêa Foto: BNC

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 08/03/2026 às 07:44 | Atualizado em: 08/03/2026 às 15:20

O auditório da Livraria Valer foi palco, no último sábado, dia 07/03, de um daqueles encontros que reafirmam o vigor da inteligência amazônida. A pesquisadora e acadêmica Marilene Corrêa, voz de proeminência global nos estudos sociológicos da região, conduziu a apresentação do livro “Do outro lado do Sol: um massacre no Rio Andirá”, do jornalista e sociólogo Wilson Nogueira.

Em uma fala que transitou entre o rigor científico e a sensibilidade poética, Corrêa não apenas apresentou um livro, mas situou a obra em uma linhagem de clássicos que “deslumbram e assustam”, comparando o impacto do texto de Nogueira a gigantes como Graciliano Ramos e Euclides da Cunha. (Clique ou Leia abaixo a apresentação completa)

Entre o Oriente e o Rio: o choque de Mundos

A obra debruça-se sobre a trágica história da família Hidaka-Kimura, imigrantes japoneses vitimados pela violência no interior do Amazonas. Para Marilene Corrêa, o livro de Wilson Nogueira ultrapassa a mera reconstrução histórica. Ela destacou como o autor evitou a armadilha de esgotar sua literatura no contexto da borracha, preferindo “descortinar a complexidade das infinitas Amazônias”.

“Nenhum planejamento desses deslocamentos humanos foi capaz de impedir o horror da intolerância, da cobiça, do estranhamento entre seres da mesma condição planetária”, afirmou a pesquisadora, pontuando que o capitalismo e o racismo mancharam as águas amazônicas com sangue, tanto de povos originários quanto de migrantes.

A paralaxe da memória

Um dos momentos mais emocionantes da manhã foi quando Marilene revisitou a trajetória pessoal de Nogueira, lembrando de um memorial onde o autor descrevia a imagem de sua canoa sendo levada pelo espelho d’água — um fenômeno físico conhecido como paralaxe. Para ela, essa capacidade de “poetizar o fenômeno físico” é o que confere à escrita de Wilson uma “vivacidade arrebatadora”.

A socióloga argumentou que a criação artística é fundamental para iluminar os processos de formação da inteligência coletiva na Amazônia. Ao trazer à luz o massacre do Rio Andirá, Nogueira exerce, segundo Corrêa, o papel do intelectual que mobiliza “imaginários insurgentes”, lutando contra o apagamento histórico e as injustiças da memória.

Esperança entre dois sóis

Ao final de sua fala, Marilene ressaltou a delicadeza com que o autor trata o diário de Teruyo, personagem central da obra, traduzido por sua bisneta. É nesse ponto que a tragédia encontra a redenção. Para a acadêmica, a obra de Wilson Nogueira termina por pontuar a “esperança da humanidade no planeta”, posicionando a Amazônia como um território onde utopias se expandem continuamente, como o próprio universo.

“Do outro lado do Sol” já nasce como um clássico necessário, não apenas para entender a imigração japonesa, mas para confrontar as sombras do nosso passado em busca de uma luz que, como o sol do título, insiste em brilhar dos dois lados do mundo.

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Leia a apresentação da professora Marilene Corrêa, na íntegra

SOBRE “DO OUTRO LADO DO SOL: UM MASSACRE NO RIO ANDIRÁ”, DE WILSON NOGUEIRA.

Marilene Corrêa da Silva Freitas, membro da Academia Amazonense de Letras.

Como a escritora Ivânia Vieira, autora das palavras da orelha do livro, estou entre aquelas e aqueles “arrastados” pela leitura de “Do outro lado do Sol: um massacre no Rio Andirá”, do colega sociólogo, do acadêmico, doutor em processos socioculturais na Amazônia, jornalista e escritor Wilson Nogueira. 

Como o escritor e professor Isaac Melo, autor do Posfácio do “Outro lado do sol”, concordo que Wilson Nogueira ultrapassa o risco de matar sua produção literária no esgotamento do contexto sobre a produção da borracha. Sua literatura realmente descortina a complexidade, riqueza e diversidade das infinitas Amazônias.

Com o escritor e crítico literário Leopoldo Bernucci, me integro às reflexões acerca dos contextos amazônicos como paraísos suspeitos, nos quais as dimensões de crueldade dos homens em sociedade criam cenários aterrorizantes da vida sob a floresta e em nossos caminhos hídricos. Destinos comuns criados pela ocupação predatória da borracha, da juta, de outros itinerários produzidos no capitalismo, em ajustes de produção e mão-de-obra por meio de movimentos populacionais. 

Com o cientista e amigo Oyama Homma, nosso sócio correspondente da Academia Amazonense de Letras, penso que o registro da vivência dos japoneses na Amazônia ainda terá muitas representações e manifestações literárias que deem conta do empreendimento humano, das experiências de deslocamentos populacionais entre diferentes culturas. Um rio entre vários mundos,  é o emblema de acolhimento de representações artísticas em que tanto Milton Hatoum, com “Um rio entre dois mundos” quanto Wilson Nogueira, com “Do outro lado do sol”, abordam encontros trágicos entre diferentes visões do Oriente.  O massacre que atingiu a família Hidaka-Kimura se inscreve entre as tragédias grupais e coletivas de muitas partes do mundo, de pessoas submetidas a condições extremas, cujas condições reveladoras dos dramas de indivíduos e coletividades foram apreendidas na literatura de Ferreira de Castro, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, José Eustáquio Rivera , exemplos que nos deslumbram, encantam e assustam…

Não é a primeira vez que a escritura de Wilson Nogueira me arrebata. Essa emoção inaugural foi sentida na leitura de seu memorial de mestrado, há muitos anos, no qual ele registra a percepção de ver o rio levar sua imagem, em uma canoa refletida no espelho d´água, e ele indaga para onde o rio a levaria, ao vê-la desaparecer. Ou seja, a lembrança infantil do escritor poetiza o fenômeno físico, o movimento da velocidade do rio versus o movimento da velocidade do barco, que produz o transporte da imagem refletida, e nos dá a ilusão de que a imagem é transportada pela correnteza. Chama-se efeito paralaxe esta ilusão visual. Impossível ter tradução poética mais fiel de memórias ribeirinhas de nossas infâncias, quando o poder de descrição da observação inocente capta um fenômeno físico. Registro esse sentimento no prefácio de seu livro Festas Amazônicas, Boi Bumbá, Ciranda e Sairé, publicado pela Valer em 2008. Ilustro, em sua escrita, uma ideia que me persegue há muito; a de que a capacidade de abstração, imaginação e de criação do interiorano amazônico se alimenta de processos naturais e sociais, na luta para sobreviver na floresta. João de Jesus Paes Loureiro, com sua competência de poeta e ensaísta, formula sua poética do imaginário sobre a realidade regional, para além de seu espaço geográfico, como território simbólico, cultural e espiritual no qual se entrelaçam o devaneio, as mitologias e as vivências amazônicas.

Pode ser dito, que os processos de formação da inteligência coletiva, da adaptabilidade e da individuação, que constituem as singularidades das gentes migrantes para a Amazônia, precisam, cada vez mais, ser iluminados pela criação artística. 

Wilson Nogueira mobiliza em “Do outro lado do Sol” diversos contextos descritivos e explicativos da geopolítica do mundo e das migrações humanas pelo planeta. Flashes da economia política e seus impactos sobre os movimentos migratórios expõem conexões que articulam os arquivos de inquéritos aos complexos caminhos em que a memória coletiva registra os conflitos e confrontos entre os migrantes japoneses e as populações nacionais receptoras na Amazônia. A complexidade dos sentimentos e pulsões, ultrapassa as contradições e desigualdades, e se plasma na intimidade das famílias, no inconsciente coletivo, e mesmo sob a rigidez da institucionalidade oriental.

Na filmografia de Tsuko Yamasaki particularidades de sentimentos no ambiente dos choques de culturas dos migrantes japoneses em São Paulo, assim como a construção sutil dos laços humanos, são expostas na beleza da atração recíproca entre os diferentes, assim como os preconceitos e o sofrimento.

Na Amazônia, a guerra, o capitalismo, o racismo, os estereótipos mancharam as águas com sangue de povos originários e deslocados para a floresta, foram concorrentes dos processos de adaptabilidade das famílias japonesas com as famílias receptoras. Nenhum planejamento desses deslocamentos humanos foi capaz de impedir o horror da intolerância, da cobiça, do estranhamento entre seres da mesma condição planetária. Com narrativa envolvente e reconstrução histórica do ambiente literário instigante, Wilson Nogueira se inscreve no plano da dramaturgia, a agilidade do texto, a vivacidade da escrita e a coerência engendrada entre os fatos e as representações imaginadas ilustram essa aproximação.

Trazer aos leitores os fatos e as circunstâncias do massacre na família Hidaka-Kimura, e o contexto de horror em meio à natureza amazônica – espaço em que governos realizaram a façanha de implantar um processo migratório internacional, com foco em experiências produtivas -,  é chamar atenção para as representações do intelectual que mobilizam imaginários insurgentes, para além da prática usual da luta pelas liberdades, porque mobiliza, simultaneamente, as lutas coletivas pelo reconhecimento e as tarefas intransferíveis de jogar luz sobre as injustiças de apagamento da memória e as possibilidades de releitura das experiências históricas pelos próprios sujeitos que as vivenciaram.

 Na delicadeza do diário de pensamentos de Teruyo, traduzidos pela bisneta a Homero,  filho zeloso de sua memória, Wilson Nogueira pontua a esperança da humanidade no planeta, entre dois sóis, dois orientes, entre utopias que se expandem, continuamente, como o universo.

Foto: BNC Amazonas