Estudo indica que crise hídrica no Sudeste tem a ver com secas na Amazônia
Pesquisa associa a crise hídrica no Sudeste às secas históricas da Amazônia em 2023 e 2024.
Wilson Nogueira, da equipe do BNC Amazonas
Publicado em: 06/01/2026 às 19:10 | Atualizado em: 06/01/2026 às 19:14
O climatologista Gilberto Fisch adiantou ao BNC Amazonas que o resultado preliminar de pesquisa realizada por ele e outros cientistas indica que as secas de 2023 e 2024 nos rios amazônicos colaboram com a crise hídrica em andamento em São Paulo e outras cidades do sudeste do País.
O estado de São Paulo possui 645 municípios, que abrigam 46 milhões de pessoas.
São Paulo, a capital, é a cidade mais populosa da América Latina, com 11,9 milhões de pessoas.
Com certa frequência, a capital enfrenta racionamento de água encanada, porque as chuvas não conseguem manter os reservatórios em níveis seguros.

Fisch estuda há cinco anos a exportação de vapores d’água, também conhecidos como rios voadores, da Amazônia para o sudeste do Brasil e demais áreas de influência do fenômeno na Argentina, Paraguai e Uruguai.
A pesquisa revela que de cada três partículas de vapor formadas na Amazônia, uma se precipita no estado de São Paulo. Isso significa que de cada 100 mm de chuva, 30 mm são exportados a partir da Amazônia.
A redução das chuvas no Sudeste está relacionada ao desmatamento da floresta amazônica, que afeta a dinâmica ecossistêmica da vegetação com a atmosfera.
“As chuvas, em particular, impactam na produção de alimento, na geração de energia hídrica e nos níveis dos reservatórios que abastecem as cidades com água encanada”, explicou Fisch.
Confira a entrevista
Quais são as suas atividades na área de pesquisa hoje?
Nos últimos cinco anos, tenho trabalhado com a medição da exportação do vapor d’água da Amazônia para a região Sudeste da América do Sul, que engloba os estados São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, mais regiões Argentina, Paraguai e Uruguai.
Essa exportação de vapor d’água da Amazônia é muito importante para garantir o ciclo hidrológico da região Sudeste. As chuvas, em particular, impactam na produção de alimento, na geração de elétrica e nos níveis dos reservatórios que abastecem as cidades com água encanada.
Atuo na linha de pesquisa, que trata da interação vegetação<->atmosfera, mais precisamente da relação da floresta amazônica com atmosfera; dos impactos que o desmatamento provoca no clima, na temperatura, na redução da chuva e no aumento da extensão do período seco.
Qual a relação do fenômeno dos rios voadores com abastecimento de água de São Paulo?
Estamos pesquisando exatamente para tentar quantificar o quanto da chuva que ocorre localmente (em São Paulo) está associado aos rios voadores que se formam na Amazônia.
Temos um número ainda preliminar, mas diria que, para cada três moléculas de vapor d’água que saem da Amazônia, uma acaba se precipitando no estrado de São Paulo.
Então, um terço da dinâmica do regime hidrológico de São Paulo acaba saindo da Amazônia.
Um lago artificial que produz energia hídrica tem 1/3 do seu abastecimento produzido na Amazonia. Se a região diminuir a sua produção de vapor d’água, vai faltar lá, na região Sudeste.
Veja só. No estado de São Paulo, em 2025 e agora em 2026, os níveis dos reservatórios estão muito baixos e estamos investigando a hipótese de que esse problema tem a ver com as secas que ocorreram na Amazônia em 2023 e 2024. Nesses anos choveu menos e, obviamente, afetou toda a recirculação de vapor d’água. A Amazônia exportou menos vapor d’água. O certo é que está tudo interconectado.
Isso reforça a necessidade de preservação da floresta amazônica…?
Isso. Por isso, é importante a preservação da Amazônia não só pelo aspecto das emissões de gases de efeito estufa, entre os quais o CO2 (Dióxido de Carbono) e CH2 (Metano), mas, também, para garantir a reciclagem do vapor d’água transportado para a região sudeste da América do Sul.
E o impacto não é só em São Paulo. A chuva que ocorre em São Paulo, acaba indo para a bacia do rio Grande, que desemboca na bacia do rio Paraná e segue para a bacia do rio da Prata.
Então é um fenômeno que interfere na região Sudeste e Sul do Brasil e, também, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai.
O impacto é alto, porque de uma chuva de 100mm, 30% seriam da Amazônia.
Na sua avaliação, os políticos, pelos quais passam as políticas públicas, levam em consideração esses resultados da ciência?
Essa é uma pergunta difícil para se responder, porque acredito que políticos brasileiros têm sensibilidade para valorizara a ciência: colaboram e divulgam as questões da preservação da Amazônia, haja vista a realização da COP 30, em novembro do ano passado, no Pará.
A COP 30 representou a Amazônia como um todo e mostrou importância da floresta em pé, da recirculação da água para a vida que está a 2 mil e a 3 mil quilômetros da daqui.
Quando a gente extrapola essa questão para o mundo como um todo, a situação já é bem diferente, porque hoje em dia há, na verdade, uma volta ao uso do petróleo muito grande. O petróleo é combustível fóssil e libera gases de efeito estufa que vão aumentar a temperatura do planeta, modificar a biodiversidade e os fluxos de energia da própria Amazônia. A interferência atinge o planeta de maneira conjunta.
Mas isso pode significar que a produção de energia falhou ou está falhando?
Não, pelo contrário, é cada vez um maior número de hidrelétricas, parques eólicos e solares, mesmo assim a produção de energia renovável ainda é pequena. O problema é que não houve redução da utilização dos combustíveis fósseis.
O ideal seria que os volumes das energias renováveis crescessem à custa de uma redução dos combustíveis fósseis, mas não é isso que vemos nos dados do mundo como um todo.
Perfil
Gilberto Fisch é natural de São José dos Campos (SP).
Atuou como pesquisador no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia no período de 1983 1986.
Trabalhou no CTA de 1986 até 2020, instituição da qual é professor aposentando.
É professor titular de Taubaté (SP), onde mora desde 1990.
Em parceria com os Climatologistas José A. Marengo e Carlos A. Nobre publicou o livro Uma revisão Geral sobre o Clima na Amazônia (Editora Valer).
Fotos: divulgação e Valeria Nakashima- Ascom/Inpa.
