Garimpeiros voltam a invadir Madeira em massa após apoio de prefeita e ex

Nova invasão de dragas expõe a dificuldade do Estado em conter uma atividade criminosa com respaldo de lideranças políticas no Amazonas

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 12/05/2026 às 22:37 | Atualizado em: 12/05/2026 às 22:37

A nova invasão de garimpeiros no rio Madeira, registrada nesta terça-feira (12 de maio), reforça um diagnóstico que vem sendo repetido por órgãos ambientais e forças de segurança: o garimpo ilegal na Amazônia deixou de ser uma atividade isolada e passou a operar como uma engrenagem econômica e política com forte capacidade de regeneração.

Mesmo após a neutralização de cerca de 3 mil dragas e balsas desde 2023, o avanço da mineração ilegal continua a impressionar pela rapidez com que equipamentos destruídos são substituídos e reenviados aos principais corredores do ouro no sul do Amazonas.

O fenômeno foi novamente exposto em imagens de centenas de balsas ocupando o rio Madeira, cenário que causou espanto entre moradores e reacendeu o debate sobre a eficácia das ações repressivas.

O BNC Amazonas mostrou que, apesar das sucessivas operações, a atividade criminosa mantém uma estrutura logística robusta e um sistema de proteção política e econômica que dificulta sua interrupção.

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Crime ambiental com estrutura empresarial

Segundo o superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, Joel Araújo, a destruição das embarcações é relevante, mas insuficiente para desarticular o sistema que sustenta a atividade.

“Temos aproximadamente 3 mil dragas e balsas neutralizadas desde 2023. Mas, o problema é que existe apoio do empresariado local e também de políticos municipais e estaduais, o que fortalece essa atividade”, afirmou.

De acordo com Araújo, o garimpo movimenta combustível, alimentação, peças, equipamentos e serviços, fazendo girar parte da economia em cidades ao longo do Madeira e de outros rios amazônicos.

Essa circulação de recursos cria uma rede de interesses que, na prática, reduz o isolamento dos grupos criminosos.

Estaleiros clandestinos em Manaus

Investigações como as operações Hefesto e Tempestade Aurífera já haviam revelado que o garimpo ilegal depende de uma cadeia de suprimentos sofisticada.

Em Manaus, estaleiros irregulares instalados em áreas próximas à ponte Rio Negro são apontados como centros de construção e reforma de balsas de grande porte, equipadas com motores potentes e sistemas de sucção capazes de revolver o leito dos rios em busca de ouro.

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Essas estruturas, avaliadas em milhões de reais, são enviadas para municípios como Humaitá, Manicoré, Novo Aripuanã, Borba e Nova Olinda do Norte, considerados pontos estratégicos da exploração ilegal.

Apoio político e disputa eleitoral

A dimensão política do problema ganhou novo capítulo nesta semana, quando a prefeita de Nova Olinda do Norte, Araci Cunha, e o ex-prefeito Adenilson Reis manifestaram apoio público à exploração de ouro no rio Madeira.

Para ambientalistas e pesquisadores, a defesa da atividade ignora evidências científicas sobre os efeitos do mercúrio na saúde humana e no equilíbrio ecológico, além de reforçar uma agenda que frequentemente encontra respaldo em discursos locais voltados à geração imediata de renda e empregos.

Mercúrio ameaça saúde de ribeirinhos

O principal impacto do garimpo não se limita à devastação ambiental. O uso intensivo de mercúrio na separação do ouro contamina peixes e, por consequência, a base alimentar de milhares de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Pesquisas realizadas na bacia do Madeira já identificaram concentrações do metal em moradores da região muito acima dos níveis considerados seguros, associadas a danos neurológicos, comprometimento cognitivo e problemas no desenvolvimento infantil.

Segundo Araújo, cada draga retirada de operação representa uma barreira concreta à disseminação do contaminante.

“Cada balsa neutralizada significa milhões de metros quadrados de água preservados e menos contaminação da alimentação da população”, afirmou.

O que sustenta o garimpo ilegal

•⁠ ⁠Cerca de 3 mil dragas e balsas neutralizadas desde 2023;
•⁠ ⁠Estaleiros clandestinos em Manaus produzem novas embarcações;
•⁠ ⁠Apoio de empresários locais e fornecedores;
•⁠ ⁠Circulação de combustível, alimentos e equipamentos;
•⁠ ⁠Proteção e apoio de políticos em municípios da calha do Madeira;
•⁠ ⁠Contaminação por mercúrio de peixes consumidos por ribeirinhos.

Uma guerra de desgaste

A reocupação do rio Madeira demonstra que a repressão, embora necessária, não basta quando a atividade criminosa encontra suporte financeiro, político e social.

O que se observa na região é um modelo de exploração ilegal que se adapta rapidamente às operações do Estado, substitui equipamentos destruídos e continua expandindo seus impactos sobre a floresta, os rios e a saúde das populações amazônicas.

Enquanto a destruição de dragas reduz temporariamente o dano ambiental, a permanência dessa rede de apoio mantém viva uma atividade que ameaça transformar o rio Madeira em um dos maiores símbolos da incapacidade do poder público de proteger a Amazônia.

Foto: BNC/arquivo