Guerreiros Mura traz mensagem de preservação
Um apelo para a proteção da floresta que mantém o equilíbrio das estações das águas.
Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 30/08/2025 às 12:05 | Atualizado em: 30/08/2025 às 12:05
Na primeira noite do Festival de Ciranda de Manacapuru, a Guerreiros Mura apresentou a sua versão para a grande estiagem de 2023 e 2024 vivida na Amazônia.
O espetáculo “Estiagem e alagação: o segredo das águas” reuniu diferentes elementos do pensamento caboclo sobre o universo das águas com o fio condutor ficcional de sua própria autoria.
Com o conglomerado de elementos acionados, fez um apelo para a proteção da floresta que mantém o equilíbrio das estações das águas.
O espetáculo se iniciou com a reunião de representantes de diferentes povos amazônicos: quilombolas, pescadores, extrativistas, indígenas e, claro, os personagens tradicionais da ciranda.

Constância, uma dessas personagens, foi representada por uma criança, sem indumentária típica.
Usando o recurso do play-back, a atriz fez um apelo que emocionou a plateia:
“Parem de fazer queimada. As queimadas trazem a seca, fome e tristeza, nossas águas viraram rio de poeira. Parem enquanto há tempo”.
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O enredo
Os povos da Amazônia se reuniram porque Maria Caninana (uma cobra), por inveja, aprisionou seu irmão, a cobra Honorato, nas profundezas do lago onde vive Yacuruna.
Com Honorato ausente, os rios perderam a sua alma. Mas, estava enfeitiçado, ausente de pensamento, por isso a estiagem foi tão grande. Ele precisa ser libertado para restaurar o equilíbrio.
Os povos reunidos concluem que somente o grande guerreiro mura poderá enfrentar os desafios: Angaturama.
E resolvem chamar Seu Manelinho, personagem tradicional, que surge como viajante do tempo e das águas.
Somente os pajés sabem chamar o vento que traz a Igara encantada. Seu Manelinho, o encantado, vem representado por Alciro Neto, o apresentador, que surge na alegoria da canoa.
Interessante notar o movimento que fez a Mura: Seu Manelinho, uma personagem que representa um arquétipo de pescador do mundo real, é alçado para a dimensão do encantamento, sendo apresentado como entidade, viajante do tempo e das águas.
Seu Manelinho, pescador e contador de histórias, presencia toda a saga de Angaturama.
Cordão de entrada
No primeiro ato, entra o cordão de entrada, representando o povo indígena tapuia – Maria Caninana e Cobra Honorato são filhos gêmeos da Boiúna, cobra grande encantada, com uma indígena tapuia. E Angaturama entra em cena.
Faz-se o duelo entre cobra Honorato e Maria Caninana, representados por dois excelentes bailarinos.

O cordão de entrada foi dividido em duas partes. A segunda parte surgiu para representar a ida de Angaturama pelo mundo das águas.
Os cirandeiros entraram com um boto nas costas, conduzindo um carrinho que representava a água. Ao entrar, o encaixe dos corpos no carrinho, ocultava os cirandeiros, dando a impressão de que os botos entravam sozinhos.
A saga do guerreiro
Em seguida, o grande guerreiro vive sua saga. E encontra os seres das águas, que trouxeram as itens individuais, que o ajudaram a encontrar o lago de Yacuruna, nos entremeios da pororoca.
Por fim, Angaturama vence Yacuruna, representado por uma criatura zoomorfa de jacaré com cobra, e restabelece o equilíbrio das águas.
Condução monótona
Apesar do belíssimo enredo e da inovação criativa, a Guerreiros Mura demorou em seu ato introdutório.
Além disso, fez longas pausas na música para fazer as explicações do apresentador.
A tocata Tribal Mura parava e, em seu lugar, ouvia-se um efeito de ventania.
O cordão de cirandeiros demorou 40 minutos para entrar e, consequentemente, para as movimentações de arena acontecerem.
O próprio cordão de cirandeiros, embora quase perfeitamente sincronizado e numeroso, economizou em surpresas coreográficas e criatividade.
As “surpresas” ficaram a cargo das aparições dos itens, que entraram em alegorias sem defeitos, mas sem grandes efeitos.
Apesar de monótona, a apresentação da Guerreiros Mura esteve impecável, sem problemas com alegorias, sem grandes falhas na sincronia dos cordões, com belíssimas e luxuosas fantasias, com boa execução dos itens individuais.
A ciranda do bairro da Liberdade jogou com o regulamento na mão e é forte candidata ao título.
Fotos: Dassuem Nogueira/especial para o BNC Amazonas
