Janilson Sateré: da comunidade indígena à medicina
Sua trajetória é marcada pela determinação, pelo desejo de estudar e pelo orgulho de representar sua comunidade
Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 17/03/2026 às 07:53 | Atualizado em: 17/03/2026 às 07:53
Janilson Silva dos Anjos, 29 anos, é indígena do povo Sateré Maué, nascido em Boa Vista do Ramos (AM), criado na comunidade Aninga, nesse município. Hoje, mora em Altamira, sudoeste do Pará, onde cursa Medicina na Universidade Federal do Pará (UFPA). Sua trajetória é marcada pela determinação, pelo desejo de estudar e pelo orgulho de representar sua comunidade.
Nas redes sociais, @jan.satere (Instagram e Tik tok) soma mais de 80 mil seguidores, que acompanham sua rotina de estudante de medicina, os desafios, aprendizados e reflexões de quem saiu de sua comunidade para a universidade.
Seu conteúdo conecta pessoas com sua história real de superação e tem inspirado jovens em condições semelhantes a acreditar que sonhos podem ser conquistados, mesmo em lugares distantes.
Sua história chamou a atenção da internet. A página Razões para Acreditar, conhecida nacionalmente, se mobilizou para ajudá-lo com uma vaquinha que viabilizou sua mudança para Altamira e o início da vida universitária. Essa repercussão mostra não só o valor da sua trajetória, mas também o interesse público que ela desperta.

Janilson Sateré faz parte de uma nova geração de indígenas que são beneficiados por políticas de ações afirmativas nas universidades e que desejam retornar para contribuir com sua comunidade.
Janilson Sateré conversou com o BNC Amazonas e contou mais sobre sua jornada na universidade.
Você sempre quis estudar medicina?
Era sonho desde criança, mas achava que era algo muito distante da minha realidade, sabe? E deixei para lá. Mas quando terminei o ensino médio foi mais decisivo. Ainda aconteceram perdas de parentes para doenças e eu decidi que tinha que estudar medicina. Perdi meu tio Zildo para o câncer e eu vi o sofrimento dele de perto, foi muito difícil pra mim. E depois perdi minha irmã Suzi, de 38 anos, que morreu durante a pandemia de covid-19. Eu estudava chorando e com depressão, foi bem difícil essa fase.
Você saiu do ensino médio para a faculdade? Como foi o processo de ingresso no curso de medicina?
Não. Assim que saí do ensino médio, tentei vestibular, mas não passava. Em 2021, fui pra São Paulo. Lá, trabalhava como garçom nas noites e de manhã estudava me preparando pra vestibular. Eu voltei para o Amazonas depois que eu soube que minha mãe estava doente. Mas assim que voltei, continuei estudando. E resolvi tentar mais uma vez o vestibular para medicina e dessa vez eu passei na UFPA, passei pela cota para pessoas indígenas. Terminei o ensino médio com 18 anos e ingressei na faculdade com 29 anos.
Como aconteceu a vaquinha da Razões para acreditar?
Eu já estava guardando dinheiro para minha viagem para chegar até a universidade. Assim que eu passei no vestibular, meu irmão sofreu um acidente, quebrou as pernas e tivemos que usar o dinheiro para custear a ida dele para Manaus. Foi aí que eu achei que ia perder minha matrícula na UFPA. Falei para os meus amigos e eles postaram meu vídeo na rede social falando essa situação. Não sabia que ia repercutir tanto. E no outro dia, a Razões para acreditar estava me ligando para fazer uma vaquinha para minha viagem.
Quais são os maiores desafios que você enfrenta para cursar medicina, sendo indígena?
São muitos desafios. Tem a dificuldade financeira, pois é um curso que tem gastos de materiais, mesmo sendo público. E o preconceito que eu senti desde o primeiro dia de aula, as pessoas ainda olham para o indígena como alguém indigno de ocupar uma faculdade, ainda mais medicina. É muito difícil sentar na sala para estudar para ser médico e ao mesmo tempo sentir um sentimento de não pertencimento, sabe? O preconceito existe e é real. Sem falar na saudade de estar longe dos meus parentes.
Você recebe algum apoio institucional da UFPA ou agência de fomento atualmente?
Existe o bolsa permanência, ele ajuda muito nas despesas, mas ele é um auxílio que atrasa muito. É difícil para o aluno que tem contas a pagar naquele mês.
Quais seus planos quando se formar médico?
Como médico, quero voltar para cuidar do meu povo. Quero também fazer uma especialização em saúde da família e comunidade, quero cuidar de crianças, idosos e todo público mais vulnerável.

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Fotos: divulgação
