Sociólogo destaca mandioca como resistência cultural na dieta nortista

Lançamento de livro em Manaus ressalta papel da mandioca na dieta amazônica e sua força como resistência cultural.

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 09/10/2025 às 16:14 | Atualizado em: 09/10/2025 às 16:24

A ignorância e a má-fé escandalizaram a saudação da presidente Dilma Roussef (2011-2016) à mandioca durante a abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em junho de 2015, em Palmas (TO).

A educação ocidentalizada até hoje ensina nas escolas que “existimos evoluídos” graças ao cultivo do trigo nas margens do Nilo, em terras do noroeste africano.

Soma-se a isso delinquência verbal misógina e machistas dos então proto-bolsonaristas que Freud explica.

O que Dilma enfatizou foi que “nenhuma civilização nasceu sem ter acesso a uma forma básica de alimentação e aqui nós temos uma [a mandioca]”.

Ensaio

Quem ler o ensaio do sociólogo e professor emérito da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Renan Freitas Pinto, “Mandioca na Amazônia: comidas e bebidas” (editora Valer), entenderá os porquês da importância dessa raiz tuberosa na existência das populações ancestrais da América do Sul.

O livro será lançado hoje, 9 de outubro, às 17h, na Valer Teatro (largo de São Sebastião, centro de Manaus).

Alimento fundamental

As populações amazônicas até hoje têm os produtos derivados de mandioca, também chamada de aipim e macaxeira, rica em amido e carboidratos, como fundamentais em sua dieta.

Renan Pinto demonstra, recorrendo a estudiosos do tema, que os povos ancestrais aperfeiçoaram ao longo dos séculos as variedades e os produtos derivados da mandioca.

As comidas e bebidas de origem indígena circulam até hoje entre eles e outros segmentos da população brasileira, inclusive nos restaurantes, bistrôs, bares e eventos religiosos e festivos.

Variedade comestível

O sociólogo chama a atenção do leitor para a variedade de produtos comestíveis obtidos da mandioca, tais como: farinhas, tacacá, tucupi, maniçoba, beijus, bebidas ritualísticas e recreativas etc.

Para cada produto, Pinto dá exemplos de como prepará-lo e usá-lo conforme manda a tradição ancestral e as inovações que vieram com a culinária moderna.

As farinhas servem para chibés, pirarucu de casaca ou como acompanhamento das refeições principais.

O tacacá é um caldo de tucupi e goma, misturados com camarão, erva jambu e pimenta a gosto.

A maniçoba é preparada com folhas da maniva cozidas para a retirada do álcool anídrico e associada ingredientes segundo a tradição de cada lugar.

A maniçoba mais conhecida é a da culinária paraense, cuja mistura são as mesmas partes suínas usada nas feijoadas. Diz-se, por isso, que a maniçoba paraense é parecida com a feijoada carioca.

Bijus e bebidas

Também são inúmeras as variedades de bijus e bebidas vendidas em feiras e supermercados das cidades do Norte e Nordeste do Brasil.

Os cafés regionais que estão distribuídos na cidade e na beira das estradas próximas ao meio urbano atestam o vigor da economia gerada pelos produtos derivados da mandioca e suas inovações.

Resistência cultural

A presença secular dos derivados da mandioca entre os povos amazônicos confirma um ato de resistência cultural, haja vista que se contrapõe à imposição pelo mercado alimentos industrializados.

Originária da América do Sul, a mandioca também se espalhou para outros continentes, com mais ênfase para a África, especialmente na África subsaariana (Angola, Etiópia, Nigéria, África do Sul e Quênia), onde contribui com o combate à fome.

Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas