Matança do Garantido tem lançamento de documentário de quilombo
Pesquisadora Cleumara Monteverde lança documentário e e-book sobre a história, a resistência e o patrimônio cultural do quilombo da baixa da Xanda durante a tradicional matança do boi Garantido, em Parintins.
Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 15/07/2026 às 10:01 | Atualizado em: 15/07/2026 às 12:37
No dia 17 de julho, às 20h, durante a tradicional matança do boi Garantido, no curralzinho da baixa da Xanda, em Parintins, será lançado mais um documentário e um e-book da pesquisadora, produtora cultural e neta do fundador do boi Cleumara Monteverde. Ambos possuem o título “Ressignificação e resistência: a história, cultura e luta do povo”.
São o terceiro documentário e o segundo livro produzidos no âmbito do projeto “Ressignificação e resistência: a história, cultura e luta do quilombo da baixa da Xanda e o patrimônio do boi Garantido em Parintins”, contemplado pelo edital pesquisa em cultura e patrimônio cultural, na categoria pesquisas de grande porte, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.
Os outros documentários são “Garantido, a tradição cultural de Lindolfo Monteverde”, lançado em 24 de junho de 2024, durante a ladainha para São João. E “Símbolos de resistência da baixa da Xanda”, lançado na mesma data em 2025. O primeiro livro é “Um sonho garantido”, lançado em 17 de julho, durante a festa de matança do boi, em 2024.
Os documentários estão disponíveis na página “Garantindo a tradição cultural de Lindolfo Monteverde”. Os livros físicos podem ser encontrados com a autora, na loja Q-BOI e Griffe Perreché.
Um passado para as futuras gerações
O BNC Amazonas conversou com Cleumara Monteverde, que contou que o registro das memórias da baixa nasce da vontade de contar para as futuras gerações a história de luta de sua família e das demais que formam o quilombo.
“É um território de quilombo e um símbolo de resistência histórica e de luta. As pessoas que vivem nesse local lutaram muito. Não são só pessoas da minha família, mas de todas as pessoas que moraram naquele lugar, que foram próximas ao meu avô, que moram ainda no reduto da baixa”.
Baixa da Xanda
“Eu acho que até esse nome ‘baixa do São José’ é uma tentativa de apagar a história das minhas avós, Germana e Xanda [fundadoras da baixa]. Isso não pode mais acontecer. Então é preciso registrar esse processo de lá para cá. Claro, que eu não vou conseguir registrar tudo, mas a intenção é a melhor”, disse Cleumara.
O documentário
“Nos documentários têm fortes falas, sabe? De afirmação de que aquele lugar foi mesmo um espaço de luta e de resistência. Vou trazer memórias muito importantes para o Garantido e, também, para Parintins. Todos que falam trazem alguma coisa diferente, algo novo que as pessoas ainda não sabem e que são importantes para nós enquanto torcedores do Garantido, enquanto família, enquanto quem tem o comprometimento de registrar as narrativas.
É importante também para que as futuras gerações conheçam suas origens, para que compreendam também a resistência de seus ancestrais, e conheçam também o valor cultural que existe na baixa da Xanda. Isso é muito importante: transformar memória em patrimônio vivo”.
A matança do boi
O lançamento acontecerá como parte da programação da matança do boi Garantido, que ocorre sempre em 17 de julho, no dia seguinte após o encerramento da festa da padroeira de Parintins, Nossa Senhora do Carmo.
A matança é o ritual que encerra o ciclo festivo tradicional do boi Garantido. Nessa festa, é encenado o auto do boi, que mantém roteiro e versos na versão de Lindolfo Monteverde. Nele, o boi Garantido morre para ressurgir no próximo ano. Em seguida, há uma comilança de carne de boi compartilhada entre a vizinhança.
Datas simbólicas
Cleumara sempre escolhe datas tradicionais do boi Garantido para o lançamento dos produtos do projeto.
Segundo a autora, “não faço em outras datas e nem em outro lugar o lançamento desse material porque tudo acontece lá: as pessoas são dali, moradores daquele local, eu nasci lá, me criei lá, vivi lá. Há um sentimento de pertencimento ao lugar e o sentimento de fazer com que aquelas pessoas se sintam parte”.
Resistência cultural
A pesquisadora também reflete sobre o papel da sua família: “O boi Garantido é tido como um boi de tradição, mas se você for observar existe uma grande luta da família Monteverde para manter as datas tradicionais do boi Garantido. Eu vejo isso como uma bandeira mesmo, acaba sendo um ativismo para mim: fazer permanecer lá tudo o que é sobre a história do meu boi, do meu avô e do boi Garantido. Então, a baixa tem uma simbologia, um sentimento muito forte envolvido, de maneira que não tem como ser em outro lugar, tem que ser lá”.
Sobre a autora
Neta de Lindolfo Monteverde, criador do boi Garantido e um dos grandes nomes da cultura popular amazônica, Cleumara Monteverde é escritora, produtora cultural, pesquisadora, curadora do acervo da família e professora da rede pública de ensino em Parintins.
Há mais de dez anos, atua em projetos voltados à preservação da memória, do patrimônio e da identidade cultural amazônica.

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Fotos: Cleumara Monteverde/divulgação
