Mondragon desapareceu em um local sagrado

Ex-lutador morreu em São Gabriel da Cachoeira, em local marcado por lendas indígenas de desaparecimentos.

Publicado em: 20/12/2025 às 13:13 | Atualizado em: 20/12/2025 às 13:14

Por Dassuem Nogueira*

O falecimento de Gerônimo dos Santos, conhecido como “Mondragon”, entra para uma extensa lista de desaparecimentos ocorridos sempre em frente à cidade de São Gabriel da Cachoeira, a cerca de 852 quilômetros de Manaus. 

O desaparecimento de Mondragon ocorreu na manhã de sábado, 13 de dezembro. Seu corpo foi resgatado na segunda-feira, 15, cerca de dois quilômetros do local de onde desapareceu.

Ele era ex-lutador de MMA e exercia o cargo de subsecretário de segurança pública no município.

Os povos indígenas da região possuem uma relação de profundo respeito pelo local, seguem protocolos de convivência e evitam o lugar onde Mondragon e outros desapareceram.

Os eventos fatais quase sempre ocorrem com forasteiros, que costumam menosprezar esse tipo de conhecimento, interpretando-os como superstições ou crendices.

Lajeiro

O trecho do rio Negro em frente à cidade corre sobre um lajeiro de pedras, formando uma corredeira rasa, porém bastante forte. Nele, existem buracos que dão acesso ao espaço que corre sob o lajeiro, como uma galeria de escoamento.

No meio do rio há uma ilha chamada Adana. Algumas vezes, nos casos de desaparecimento, os corpos que desaparecem entre Adana e a cidade, na corredeira nomeada como Buburi, são sugados para baixo desse lajeiro e saem mais a frente levados pela correnteza abaixo.

Quando algo ou alguém se perde entre a ilha e a outra margem, na corredeira chamada de Curucuí, não volta a ser encontrado.

No início do mundo

Segundo os povos indígenas da região, os buracos no lajeiro são locais de moradia de seres fundacionais do mundo, que são referência do percurso da grande cobra-canoa que transformou o mundo no que ele é hoje.

O local onde sumiu Mondragon é um buraco, conhecido como moradia do Mussum Kuara.

O mussum (Synbranchus marmoratus) é um peixe de corpo serpentiforme (em forma de cobra), sem escamas, com coloração escura (cinza a castanho) e olhos pequenos, semelhante ao poraquê ou peixe-elétrico.

Mussum kuara

Na versão contada por Celina Baré, gravada pelo podcast “Pavulagem”, em 2023, o Mussum Kuara é uma cobra grande que se alimenta de carne humana e tem preferência por mulheres menstruadas e recém-nascidos.

É um local que nunca seca, mesmo nas vazantes mais severas.

Diplomacia

Os indígenas da região se relacionam com a entidade de modo diplomático, respeitando códigos de convivência.

É orientação deles que o local seja evitado, e que sejam obedecidos protocolos diplomáticos conhecidos e praticados há milênios com os seres fundacionais como o Mussum Kuara.

A guerra das cobras

Na versão baré, houve uma guerra entre cobras no início do mundo. Uma delas, a fim de encerrar a guerra, pediu ajuda de um pajé para matar o Mussum Kuara, que sugava as pessoas pelo buraco.

Os indígenas do início do mundo fizeram vários matapis, armadilhas de peixe. Mas o Mussum Kuara escapou de todas elas, fazendo caminhos que formaram os pequenos igarapés da região.

Na versão baniwa, o ser que é dono do buraco é um mussum.

Adana

A guerra entre seres ancestrais no início do mundo é relatada pelos diferentes povos do alto rio negro.

Na versão tukano, os ancestrais dos humanos e as cobras fundacionais estavam em guerra.

Uma das cobras raptou a filha de um ancestral tukano no rio Uaupés, levando-a pelo rio Negro abaixo.

Seu pai soube e fez uma armadilha, um cacuri gigante, bem acima de onde hoje é a cidade de São Gabriel.

As grandes pedras que se veem pela cidade seriam os pedaços esquartejados do sequestrador. A filha raptada seria Adana, a ilha localizada em frente.

Romance

A releitura dessa narrativa foi romantizada, sendo, a versão mais difundida entre os não indígenas.

Nela, os guerreiros Buburi e Curucuí disputavam o amor de Adana. Estavam os três em uma canoa, em frente a São Gabriel, quando houve uma briga entre os homens.

A canoa virou e todos se afogaram. O mais bravo deles, Buburi, se transformou na corredeira entre de Adana (a ilha) e a cidade. Ela seria apaixonada por Curucuí, o mais pacífico, que se transformou na corredeira entre a ilha e a outra margem.

Invasão territorial

A sede do município de São Gabriel da Cachoeira ergueu-se sobre a casa do Mussum kuara. Isso teria gerado nele uma revolta porque não pôde mais viver em paz, por isso, quando se sente desrespeitado, ele leva uma vida humana.

Segundo a versão Baré, a Mussum Kuara captura as vítimas para o fundo, devolve o corpo, mas encanta seu espírito. Quando sai do buraco é possível ouvir o seu canto agudo e não humano.

Na cidade, diz-se que pessoas com maior sensibilidade conseguem escutar “a corredeira chorar” um pranto agudo sempre antes de desaparecimento de uma vítima.

A padroeira

A importância dada ao Mussum Kuara e as cobras ancestrais é milenar e teria influenciado a igreja católica na escolha da padroeira do município.

Uma prática da catequese missionária é alinhar a lógica maniqueísta do cristianismo às versões indígenas sobre a formação e constituição dos mundos.

Assim, embora o nome do município seja uma referência ao arcanjo São Gabriel, a proteção da cidade foi dada a Nossa Senhora da Conceição.

As passagens bíblicas de Gênesis 3:15 e Apocalipse 12, levam à interpretação de que Nossa Senhora pisa na cabeça da serpente, encarnação do mal no cristianismo, uma violência simbólica contra o conhecimento dos povos indígenas da região.

*A autora é doutora em antropologia.

Foto: Aguinaldo Rodrigues/acervo pessoal