Pesquisa pode apontar Manaus como capital do pardo indígena
Pesquisador considera Manaus como uma capital de indígenas e seus descendentes, no mesmo sentido em que Salvador é celebrada como uma capital negra
Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 27/09/2025 às 11:01 | Atualizado em: 27/09/2025 às 11:01
Leonardo Rocha, psicólogo, 29 anos, nascido em Pesqueira, interior de Pernambuco, é doutorando em psicologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Ele pesquisa sobre a identidade racial dos pardos de origem indígena. E tem se destacado nas redes sociais por discutir a categoria “pardo indígena”, distinguindo os que possuem fenótipo indígena daqueles em que predomina o africano.
Desde que passou a discutir sobre o tema nas redes sociais, Rocha acumula 10 mil seguidores.
Ele considera Manaus como uma capital de indígenas e seus descendentes, no mesmo sentido em que Salvador (BA) é celebrada como uma capital negra.
Por esse motivo, uma fase de sua pesquisa de campo foi realizada em Manaus e a outra será na capital baiana.

O BNC Amazonas conversou com Rocha sobre o pardo indígena.
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A entrevista
Como surgiu seu interesse pelo tema da identidade racial?
Eu venho de uma família que tem origem indígena, então isso sempre me atravessou e sempre pensei sobre. Em 2011, quando tinha por volta de meus quinze anos, me chamou atenção uma reportagem que afirmava que 50% da população do Brasil era negra. O que mais me chamou a atenção não foi o dado em si, mas, ao listar os estados mais negros do país, o Pará apareceu como mais negro que a Bahia! O Amazonas também estava ali no “top 6”, e Pernambuco era mais negro que a Bahia. E a gente sempre teve a imagem da Bahia como o estado mais negro do Brasil. Então foi disruptivo para mim ver os estados amazônicos com porcentagem de negros maiores do que eu imaginava. E quando eu fui olhar no site do IBGE, descobri que as porcentagens de negros eram, na realidade, a soma de pretos e pardos. E isso me levou a uma série de questionamentos, que eu trago dos meus 15 anos até hoje. Passei a me perguntar se todos os pardos são negros. Sendo a população do Pará e do Amazonas, fenotipicamente, mais próxima do indígena, será que é correto classificar como negros os 70% de pardos que existem nesses estados, sendo que esse subconjunto possui fenótipo indígena? Será que essa classificação não implicaria em uma representação imprecisa da realidade? Ou, ainda, no apagamento da verdadeira origem dessa população que se declara parda, mas que tem origem indígena e é socialmente reconhecida como tal? Então é isso que eu pesquiso hoje em dia.
Então é esse o objetivo de sua pesquisa?
Na minha pesquisa, primeiro, estou tentando dimensionar o número de pardos que se identificam como descendentes de indígenas, utilizando métodos quantitativos. Claro que eu sozinho não vou conseguir fazer isso, mas eu estou tentando fazer pelo menos em Manaus. Está nítido que esses descendentes de indígenas que se declaram pardos não se entendem como indígenas, já que a categoria indígena está disponível ali no IBGE e mesmo assim as pessoas não se declaram nela. Em segundo lugar, estou tentando entender como é que indígenas e pardos descendentes de indígenas constroem as diferenças entre eles. Por que o pardo descendente de indígena não se vê como indígena? E por que o indígena também não vê esse pardo como indígena, apesar de esses dois grupos compartilharem a mesma origem.
Por que Manaus?
O Amazonas é um estado, pelo menos, se supõe, onde a maior parte dos pardos é desse tipo de origem indígena. Até pelas características da formação demográfica do estado, que recebeu poucos brancos, pela economia pouco desenvolvida no tempo colonial. Nesse período, o que movia a economia aqui era a extração das drogas do sertão. A Amazônia, literalmente, não teve solo fértil para as grandes plantations, de cana de açúcar, de café, que ocorreu na costa do Nordeste, no Sudeste. Nunca foi descoberto ouro, como houve em Minas Gerais. Então, essa economia predominantemente extrativista e pouco desenvolvida atraiu poucos colonos para cá. Até hoje, segundo o IBGE, o Amazonas é o estado com menos brancos, isso é devido a esse processo histórico. E a população negra, como a gente sabe, geralmente estava também nos locais onde a população branca estava, pois o negro foi escravizado pelo branco. Até porque as atividades que um negro escravizado desempenhava não eram relacionadas ao extrativismo de drogas do sertão. A chegada de negros na Amazônia não foi tão expressiva como no Nordeste e no Sudeste. E a escravidão indígena era mais fácil e barata.
Eu entendo que pardo-indígena é uma categoria que você está discutindo a partir de uma discussão acadêmica e política. Mas, as pessoas não se pensam nessa categoria, pelo menos, até o momento. Penso que aqui no Amazonas, as pessoas se reconhecem como caboclas. Qual seria a diferença entre o pardo indígena e o caboclo na sua perspectiva?
A gente tem que diferenciar categorias nativas de categorias analíticas. Categorias nativas são as que as pessoas usam no cotidiano para se nomearem. E o que é uma categoria analítica ou teórica? São categorias que só fazem sentido dentro do corpo de uma teoria, dentro de uma discussão acadêmica. Então, eu estou usando pardo-indígena como uma categoria analítica, como uma categoria teórica. Isso tem que ficar muito bem demarcado. Eu não estou colocando pardo indígena como uma categoria de identidade. Eu estou usando como uma categoria analítica para me referir a um grupo específico, que é esse que você está falando que se denomina caboclo. Pardo-indígena ou pardo-descendente de indígenas é categoria analítica, para diferenciar do pardo negro. Caboclo não é categoria oficial, não é categoria institucional. E, em um trabalho acadêmico, a gente trabalha com as categorias institucionais, eu estou limitado nesse sentido.
E o que seria o caboclo?
Como disse anteriormente, a mão de obra que predominou no vale amazônico foi a indígena. E esses indígenas eram trazidos a partir das operações de descimento, para os aldeamentos missionários dos jesuítas. Essas vilas agregavam indígenas de etnias diferentes que se misturavam. E ali eles eram caboclizados. O que era esse processo de caboclização? Era quando o indígena era catequizado, ensinado a ter um modo de vida ocidental, costumes cristãos europeus, a falar a língua geral, o nheengatu. E, efetivamente, eles eram destribalizados, desetnicizados. Com a perda das línguas específicas que poderiam identificar a origem dessas pessoas. E aí o que era o caboclo? Era esse nativo das aldeias jesuítas, catequizado, que falava a língua geral, e que já não sabia mais a sua etnia de origem. O antropólogo João Pacheco de Oliveira, no texto “Mensurando alteridades, estabelecendo direitos”, fala que, durante o século 19, o termo índio passou a ser aplicado mais aos “índios bravos”, que eram aqueles que estavam “tribalizados”, que viviam um modo de vida visto na época como “selvagem”, que não eram os “índios civilizados”. O caboclo tinha esse caráter também. Era um “índio civilizado” que estava integrado à vida colonial. Em partes, é por isso também que a gente vê aqui na Amazônia, pessoas com fenótipo claramente indígena, que você pergunta a elas se elas são indígenas e elas dizem que não. Por quê? Porque desde o século 19, a palavra “índio” tem um significado muito mais atrelado ao “índio bravo”, e não ao caboclo. O caboclo do século 19 acaba se transformando no pardo do século 20. Especialmente quando o IBGE, em 1940, retira a categoria caboclo dos censos. E aí acaba acontecendo uma migração desses antigos caboclos para a categoria parda. Isso explica, em partes, a preferência por essa categoria de autodeclaração em regiões de forte influência indígena.
Há estudos importantes que falam sobre uma outra população de negros que chegou até aqui por meio dos quilombos e que fizeram alianças com povos indígenas nos territórios. Você está considerando também essa população? Eles também entrariam nessa equação, já que você está pensando no fenótipo?
Sim. Mas eu não acho que o caminho para destrinchar a categoria parda é biparti-la entre negros de pele clara e descendentes de indígenas. Justamente porque eu entendo que isso [as relações históricas entre quilombolas e indígenas] existe. Quando a gente fala do pardo negro, que é o negro de pele clara, a gente está falando de uma população que está em ambiguidade entre o branco e o negro. São pessoas que têm a pele mais clara, os traços mais ambíguos, justamente porque passaram por esse processo de miscigenação. Isso é muito discutido pelos teóricos do movimento negro, que falam do projeto de embranquecimento, da figura do mulato. Quando a gente fala do caboclo ou do descendente de indígenas de modo genérico, a gente está falando de uma população que está numa zona de ambiguidade entre o branco e o indígena. Mas também existe uma zona de ambiguidade entre o indígena e o negro. E há autores que já falam, efetivamente, em afro-indígena. Ou negro-indígena. Então, é uma identidade possível também.
E por que você está propondo o pardo indígena?
Porque as categorias até hoje colocadas nos estudos de raça no Brasil não dão conta da realidade amazônica. E isso responde à sua pergunta do por que eu vim fazer a minha pesquisa aqui em Manaus. Porque eu acho que a literatura sobre o pardo está muito concentrada no Rio, em São Paulo, em Salvador. Apesar de o pardo amazônico ser um grupo populacional muito importante. Pense que os estados mais pardos, segundo o IBGE, são justamente os amazônicos. Então tem uma lacuna sociológica aí.
Como você está fazendo sua pesquisa, qual seu método?
Estou usando um método parecido com a Pesb de 2002, que é a Pesquisa Social Brasileira, feita pelo DataUFF. Nessa pesquisa, pediu-se aos pardos para se reclassificarem só como pretos ou brancos. Para observar para onde os pardos migrariam, caso não houvesse a categoria parda. Esse método não considerou a possibilidade de muitas pessoas se verem como pardas mais próximas dos indígenas. E eu trouxe essas duas categorias de indígena e descendente de indígena para observar o efeito delas.
Você pode adiantar algum resultado da sua pesquisa?
Eu tenho tratado pessoas que se identificam como pardas descendentes de indígenas aqui, e essas pessoas, nas narrativas delas, elas se percebem vítimas de discriminação. Eles percebem a discriminação racial, porém, eles não acessam essa racialização a partir do repertório da negritude. São pessoas que relatam discriminação, percebem uma diferença em relação ao branco, mas elas não se colocam como negras. Elas se colocam como descendentes de indígenas, e elas fazem referência às suas características e origens indígenas.
Foto: BNC Amazonas
