O teclado no boi-bumbá de Parintins

Neste texto, Aldenor Ferreira e Neil Armstrong analisam como o teclado ajudou a transformar a sonoridade e o espetáculo do Festival de Parintins.

Mãos azul e vermelha tocam teclado cercado por elementos da floresta amazônica.

Por Aldenor Ferreira* Neil Armstrong**

Publicado em: 29/05/2026 às 22:00 | Atualizado em: 30/05/2026 às 10:16

O teclado no boi-bumbá de Parintins ajudou a transformar profundamente a experiência sonora da arena ao longo das últimas décadas. Diferentemente de outros instrumentos que foram sendo incorporados aos poucos, o teclado rapidamente assumiu papel central nas toadas e nas apresentações da arena.

Se o charango ajudou a consolidar uma identidade melódica própria ao gênero, o teclado ampliou os horizontes sonoros da toada. Além disso, introduziu novas ambiências, aprofundou harmonias e contribuiu diretamente para a dimensão épica do grande teatro a céu aberto criado pelos bois de Parintins.

Mais do que acompanhar melodias, o teclado passou, sobretudo, a exercer uma função decisiva na construção emocional das apresentações. Foi ele que ajudou a criar atmosferas, sustentar tensões dramáticas e ampliar a experiência sensorial da arena.

Além disso, em muitos momentos, sobretudo durante os rituais indígenas, o teclado tornou-se responsável por transportar o público para outra dimensão estética, transformando a arena em floresta, batalha, celebração mítica ou espaço sagrado.

Os timbres eletrônicos, as introduções prolongadas, os efeitos sonoros e as harmonias sustentadas passaram a integrar de maneira definitiva a identidade musical do Festival.

Uma nova arquitetura sonora na arena

A consolidação do teclado no Festival de Parintins coincidiu com a expansão estética e tecnológica do espetáculo. Nesse processo, o boi-bumbá incorporou tecnologias modernas sem perder sua alma amazônica. Ao mesmo tempo, o teclado ajudou a ampliar essa identidade regional.

Os músicos do Festival conseguiram transformar um instrumento eletrônico global em linguagem profundamente amazônica. Para isso, adaptaram sonoridades contemporâneas às narrativas, aos mitos e às emoções presentes nas toadas.

O resultado foi uma estética musical própria, imediatamente reconhecível por qualquer pessoa que acompanhe o Festival de Parintins. Entretanto, nem sempre foi assim. No início, lá pela metade da década de 1990, a atuação do teclado ainda era bastante limitada e minimalista dentro das toadas.

Naquele período, o instrumento aparecia principalmente em pequenos solos, introduções simples ou melodias pontuais destinadas apenas a acrescentar certo colorido sonoro às composições.

Um exemplo marcante desse período é a toada “Vermelho”, cuja introdução, executada pelo tecladista Carlinhos Bandeira, utiliza de maneira bastante simples timbres de strings e piano elétrico, além de um discreto som de órgão no refrão.

Naquele momento, os teclados – muitos deles modelos da linha Yamaha PSR – eram usados principalmente para reproduzir efeitos específicos, simular timbres de flauta pan ou criar pequenas passagens melódicas associadas às músicas de temática indígena.

O teclado assume o espetáculo

Com o passar do tempo, entretanto, o papel do teclado mudou profundamente. À medida que o Festival se tornou mais grandioso, teatral e tecnologicamente sofisticado, o instrumento deixou de funcionar apenas como apoio harmônico ou recurso de efeitos. O teclado passou a ocupar posição central na arquitetura sonora das apresentações.

Atualmente, músicos e profissionais do Festival estimam que o teclado represente parcela significativa da construção musical do espetáculo. O instrumento passou a comandar trilhas completas de aberturas, pot-pourris, evoluções cênicas e chegadas de itens na arena.

Nesse contexto, essa transformação permitiu ao boi-bumbá ampliar ainda mais sua dimensão cinematográfica. As lendas amazônicas, os grandes rituais indígenas, os confrontos mitológicos e os momentos dramáticos passaram a incorporar trilhas mais densas, timbres mais pesados e harmonias mais complexas.

O teclado tornou-se responsável por preencher a arena com sons que ajudam a produzir suspense, encantamento, tensão e dramaticidade.

Os tecladistas e a reinvenção do espetáculo

Dentro desse processo, alguns nomes se tornaram fundamentais para consolidar essa nova linguagem sonora dentro do boi-bumbá. Entre eles, Alceo Anselmo ocupa lugar pioneiro ao introduzir o teclado na arena do Bumbódromo, ajudando a redefinir a própria experiência sonora do Festival de Parintins.

Alceo foi responsável por arranjos que se tornaram imortais na história do boi Caprichoso, marcando toadas como “Canoeiro”, “Fibras de Arumã”, “Kananciuê”, “Réquiem”, “Pesadelo dos Navegantes”, “Vale do Javari”, “Hurequeí”, “Canto da Mata” e tantas outras que permanecem vivas na memória afetiva do torcedor azul e branco.

Ao lado de nomes como Dino, Labamba, Reina e Carlinhos Bandeira, Renato Bassile, Walfran, Marcão, Alceo ajudou a redefinir o papel do tecladista nas apresentações e nas gravações de toadas. Na prática, não se tratava apenas de executar acordes ou acompanhar cantores, mas de construir atmosferas, conduzir emoções e ampliar a força dramática do espetáculo dentro da arena.

Nesse sentido, esses tecladistas passaram a atuar como verdadeiros arquitetos da ambiência sonora do Festival. Suas camadas musicais enriqueceram as performances e ajudaram a levar o espetáculo do boi-bumbá a um novo patamar artístico.

Além disso, ao longo dos anos, outros nomes também passaram a integrar essa linhagem de tecladistas fundamentais para a história da toada. Entre eles, Neto Gadelha, Johnny Calderaro, Valdenor Filho (Pelado Jr.), Joel Maklouf, Bennett Carlos e tantos outros ajudaram a dar continuidade a essa tradição musical, incorporando novas tecnologias, sonoridades e possibilidades de performance sem romper com a identidade estética construída pelas gerações anteriores.

Por isso, grande parte da força estética que hoje caracteriza a toada do boi-bumbá de Parintins nasceu justamente da criatividade desses tecladistas, da incorporação dos sintetizadores e da capacidade de transformar som em emoção coletiva dentro da arena.

Considerações finais

O fato é que o teclado no boi-bumbá deixou de ser apenas um instrumento complementar do espetáculo. Ao longo das últimas décadas, ele passou a integrar a própria identidade estética do Festival de Parintins.

Grande parte da força sensorial que atravessa a arena nasce justamente dessas camadas sonoras criadas pelos tecladistas, capazes de transformar apresentações em experiências coletivas de encantamento e emoção.

Como mencionado, ao longo das últimas décadas, o teclado ajudou a ampliar o caráter teatral, cinematográfico e épico do Festival. Foi por meio dele que o boi ganhou novas atmosferas, novos climas emocionais e novas possibilidades narrativas.

Os rituais indígenas, as lendas amazônicas e os grandes momentos de impacto visual passaram a dialogar diretamente com trilhas mais sofisticadas e ambiências sonoras cada vez mais complexas.

Nesse sentido, os tecladistas do boi-bumbá não são apenas músicos de apoio. São artistas fundamentais para a construção estética da identidade contemporânea do Festival de Parintins. Em cada introdução, solo, efeito ou trilha executada na arena, existe também uma parte da memória afetiva da Amazônia sendo produzida ao vivo diante do público.

*Sociólogo.

** Maestro e produtor musical.

Arte: Gilmal.