Brasília e suas cracolândias: o choque de quem visita o DF

Aldemir Santana, 52 anos, está em situação de rua há mais de 10 anos. Ele disse que quer voltar para a reabilitação, após passar várias vezes por tratamentos nos CAPS de Brasília

Aldemir Santana, 52 anos, em situação de Brasília Foto: BNC Amazonas

Aldenor Ferreira, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 29/09/2025 às 16:36 | Atualizado em: 29/09/2025 às 16:52

Estou em Brasília para participar de um grupo de trabalho do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) sobre Multicampia e Fronteira. Como visitante, a cena que presenciei no coração da capital federal revela contradições profundas.

Na manhã desta sexta-feira (27), após as atividades do GT, segui em direção ao Shopping Pátio Brasil. O caminho pelas ruas projetadas por Oscar Niemeyer foi marcado por uma cena constrangedora: moradores de rua, muitos visivelmente sob efeito de drogas, ocupavam as calçadas do Setor Comercial Sul (SCS).

O perfil predominante era de homens pretos e pardos. Essas características evidenciam o traço racial da exclusão social que se intensifica nas ruas da capital.

Depois do almoço, ao retornar de carro por aplicativo, ouvi a queixa do motorista. “Está terrível a situação aqui no SCS. O comércio está sendo prejudicado por esse monte de gente desocupada e drogada perambulando. O governo não faz nada. Está perigoso! Você que é de fora não pode dar vacilo ao caminhar por aqui, pois os caras estão na fissura, aí você sabe como é né?”, desabafou.

Na mesma região, pesquisas acadêmicas já confirmaram a gravidade da situação. Um levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), conduzido pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), mostrou que 58,5% dos frequentadores das chamadas “cenas de uso” no Distrito Federal não são do DF, mas de outros estados. Apenas 23,2% afirmaram ser brasilienses – e destes, 94% vivem justamente na Asa Sul, onde está localizado o SCS.

O estudo também revelou que mais da metade dos usuários (58,6%) dorme diariamente na cena de uso, enquanto cerca de 30% passa o dia no local, mas dorme em outras áreas.

Ainda segundo o estudo, a cena do SCS, conhecida como “Buraco do Rato”, foi justamente um dos locais analisados pelos pesquisadores.

Eles apontaram uma característica peculiar em Brasília: ao contrário de outras capitais, onde o consumo de crack se mistura ao comércio e ao fluxo de moradores locais, no DF a cena de uso se configura de forma segregada, com forte concentração em pontos específicos e distante de uma integração comunitária.

O retrato, portanto, expõe mais do que a presença do crack nas ruas. Evidencia a ausência de políticas públicas consistentes, tanto sociais quanto de segurança, e o peso do racismo estrutural que marca quem é empurrado para essa condição.

Enquanto o poder político se concentra a poucos quilômetros dali, a capital projetada para ser vitrine da nação mostra suas fraturas mais profundas – onde a desigualdade, a cor da pele, os fluxos migratórios e a omissão estatal se combinam em um espetáculo diário de abandono.

Foto: BNC Amazonas/Brasília