Crise na Rede Amazonas ameaça candidaturas indígenas nas eleições de 2026

Conflito interno no partido desmantela união na sigla e líderes como Vanda Witoto e Jecinaldo Sateré cogitam mudar de partido.

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 25/11/2025 às 18:07 | Atualizado em: 26/11/2025 às 15:35

A Rede Sustentabilidade no Amazonas atravessa um profundo conflito interno que ameaça desmantelar o bloco unificado projetado para as eleições de 2026.

O partido foi escolhido pelas principais lideranças indígenas do estado para aglutinar forças e garantir representação inédita no Congresso Nacional.

Dessa forma, lideranças históricas da Rede, como a ex-candidata nas últimas eleições, Vanda Witoto, e Jecinaldo Sateré, já conversam com outras siglas, como a Federação PT-PCdoB e partidos de centro, como MDB e PSD.

Enquanto isso, o novo porta-voz interino da Rede no Amazonas, Marcos Apurinã, busca manter o partido de pé e a luta pela pauta indígena.

“Eu ainda vou falar com a Vanda [Witoto], apesar de que ela já declarou estar cogitando ir para o PT ou PCdoB”, declarou o dirigente partidário.

O Amazonas possui a maior população indígena do país, com quase 500 mil indivíduos. Apesar dessa força numérica, o estado nunca elegeu um deputado estadual ou federal indígena.

E foi com o objetivo de quebrar esse tabu e aumentar a bancada indígena em todos os níveis, que as principais lideranças optaram por se filiar à Rede Sustentabilidade.

Dessa forma, a Rede foi inicialmente vista como um partido de esquerda que poderia abarcar a pauta dos direitos indígenas e aglutinar outros movimentos sociais.

A estratégia era construir um forte coeficiente eleitoral a partir da união de votos, garantindo que alguma liderança indígena fosse eleita, fosse ela federal ou estadual. O objetivo era alcançar um êxito inédito.

Lideranças de peso

Entre as lideranças de peso, filiadas à Rede, estão Vanda Witoto, que teve expressiva votação como candidata pelo Amazonas, em 2022, para deputada federal e 2024 para vereadora de Manaus).

Além dela, Marcos Apurinã, Jecinaldo Sateré (ex-candidato a deputado estadual em 2010), Marivelto Baré (ex-candidato a prefeito de São Gabriel da Cachoeira) e Sinésio Trovão Ticuna, ex-presidente da Fundação Estadual dos Povos Indígenas.

Jecinaldo Sateré, que é chefe da Assessoria de Participação Social, do Ministério dos Povos Indígenas, informou que mais de 200 lideranças se filiaram em todo o estado, sendo 150 delas somente em sua filiação.

Racha das correntes da Rede

O projeto de unificação foi diretamente impactado por um conflito nacional dentro da Rede Sustentabilidade, que se refletiu nas direções estaduais.

O embate se deu entre a ala Rede Vive, puxada pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a ala Rede pela Base, liderada pela ex-senadora Heloísa Helena à qual Jecinaldo se filiou.

O conflito resultou em uma eleição interna que foi parar na Justiça no início de 2025. No Amazonas, isso gerou uma intervenção nacional:

A liderança de Vanda Witoto, ligada à corrente de Marina Silva, ficou inicialmente com a direção. Após a nacional (vencida pelo grupo de Heloísa Helena) pedir o afastamento do grupo de Witoto, Marcos Apurinã, da Rede pela Base, assumiu como novo porta-voz interino da Rede no Amazonas. O comando será até dezembro de 2025.

A intervenção da nacional, caracterizada por Jecinaldo Sateré como uma quebra do projeto, deixou o partido em um imbróglio judicial e causou insatisfação na ala de Witoto, que era a porta-voz da Rede no estado.

Dispersão em 2026

Com o conflito e a quebra da unidade, os líderes enfrentam agora o desafio de encontrar um partido que dê segurança e prioridade à causa indígena até o prazo final de filiação em abril.

O grupo de Vanda Witoto foi um dos primeiros a dialogar a saída. A líder indígena está discutindo sua filiação à Federação PT/PCdoB.

Jecinaldo Sateré (pré-candidato a deputado federal) também estuda a possibilidade de saída, pois avalia que o conflito interno torna o projeto quase inviável. Ele e seu grupo (cerca de 150 lideranças) buscam diálogo com outros partidos:

Um deles é o MDB, do senador Eduardo Braga. Jecinaldo Sateré foi secretário de Estado dos Povos Indígenas, durante o governo de Braga em 2010. Segundo ele, o senador foi o primeiro governador do Brasil a criar uma pasta dedicada aos indígenas.

Outro partido que o líder indígena poderá se filiar é o PSD, do senador Omar Aziz.

Risco à direita

Apesar de reconhecer o risco de se filiar a partidos tradicionalmente de centro-direita/direita, Jecinaldo Sateré defende a busca por pragmatismo até o prazo final em abril:

“Nós estamos buscando ver qual o partido que primeiro receba com respeito às pautas indígenas e também quais desses partidos podem realmente dialogar e dizer que a cultura e a causa indígena terão prioridade nesses partidos”, declarou o líder indígena.

Ele também expressou a dificuldade inerente à causa indígena na política, mas diz que perseguirá a unidade:

“Eu, particularmente, ainda acredito nisso, mas a gente sabe que já existe um contexto e um diálogo de outras lideranças com outros partidos. Mas a gente espera que nos próximos dias a gente consiga, a gente vai fazer uma mais uma tentativa para que a gente possa manter essa unidade”, ressaltou Jecinaldo Sateré.

Permanência na Rede

Marcos Apurinã, que é pré-candidato a deputado federal nas eleições de 2026, mantém uma posição firme contra a dispersão. Ele afirma que não sairá da Rede e que sua missão é fortalecer o partido no Amazonas.

“Eu não sairia. Eu pretendo manter o fortalecimento da Rede no Amazonas, pulverizando a continuidade e ampliar o fortalecimento do partido. Recebi essa missão de ser porta-voz da Rede, por isso, eu preciso continuar a luta. Nós não podemos parar”, finalizou o atual dirigente da Rede Sustentabilidade no Amazonas, Marcos Apurinã.

Fotos: divulgação