Crises no PL ameaçam palanque de Flávio Bolsonaro no Amazonas
Sequência de desgastes enfraquece Maria do Carmo e amplia dúvidas sobre a estratégia bolsonarista no estado
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 22/07/2026 às 18:55 | Atualizado em: 22/07/2026 às 18:55
Nova série do BNC Amazonas acompanhará, semana a semana, os fatos que podem mudar os rumos da sucessão presidencial.
Uma sequência de conflitos internos dentro do Partido Liberal (PL), a perda de força da pré-candidata do partido ao Governo do Amazonas, Maria do Carmo Seffair, nas pesquisas eleitorais, e dificuldades para formar alianças colocam em xeque um dos palanques considerados estratégicos da direita na disputa presidencial.
Isso porque quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República, escolheu o Amazonas para lançar a empresária como pré-candidata ao Governo do Estado, o projeto era ambicioso: transformar o maior estado da região Norte em um dos principais palanques da direita na eleição presidencial de 2026.
Poucos meses depois, entretanto, a estratégia passou a conviver com uma sucessão de obstáculos que vai além da disputa regional.
O que começou como uma candidatura competitiva passou a enfrentar dificuldades para ampliar alianças, perdeu espaço nas pesquisas de intenção de voto e agora sofre os efeitos da disputa interna que divide o próprio PL nacional.
Isoladamente, cada episódio poderia ser interpretado como parte da dinâmica natural da pré-campanha. Em conjunto, porém, eles desenham um cenário de crescente incerteza sobre a capacidade do partido de chegar unido à eleição no Amazonas, já que é estado considerado estratégico tanto para a disputa presidencial quanto para a renovação de dois terços do Senado.
No Amazonas, a direita bolsonarista apresenta Do Carmo como pré-candidata ao governo e ao Senado, o deputado federal Alberto Neto.
No entanto, o ex-governador Wilson Lima (União Brasil), que se diz bolsonarista convicto, também busca votos na direita do Amazonas.
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O projeto de Flávio Bolsonaro
Assim, o Amazonas se tornou prioridade para Flávio Bolsonaro ainda no início da pré-campanha.
Além de participar pessoalmente do lançamento da pré-candidatura de Do Carmo, o senador fluminense passou a apresentar a empresária como o principal nome do PL na região Norte e uma peça importante na construção de seu projeto presidencial.
A aposta não era casual. Além do crescimento do eleitorado amazonense, o estado reúne uma disputa competitiva pelo governo, duas vagas em disputa para o Senado e protagonismo nacional em temas como Zona Franca de Manaus, bioeconomia, segurança de fronteiras e políticas para a Amazônia.
Consolidar um palanque competitivo no estado significaria ampliar a presença política da direita em uma região historicamente disputada pelo PT.
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Estado estratégico
O interesse de Flávio Bolsonaro pelo Amazonas também é explicado pelo comportamento recente do eleitorado.
Em 2018, Jair Bolsonaro (o pai) rompeu uma sequência de vitórias do PT no estado ao derrotar Fernando Haddad por apenas 9.556 votos, uma diferença de 0,54 ponto percentual.
Quatro anos depois, o cenário mudou. Lula da Silva recuperou o Amazonas ao vencer Bolsonaro por 43.250 votos, com 51,1% dos votos válidos, contra 48,9% do então presidente.
O resultado estadual, entretanto, esconde uma realidade política importante. Enquanto Lula construiu sua vitória principalmente no interior do estado, Bolsonaro manteve ampla vantagem em Manaus, onde venceu por 53,89% a 46,11%, abrindo uma diferença de 86.837 votos sobre o petista.
Como a capital concentra aproximadamente metade do eleitorado amazonense, Manaus permanece como o principal reduto eleitoral do bolsonarismo na região Norte.
Isso ajuda a explicar por que a construção de um palanque forte no Amazonas continua sendo considerada estratégica para qualquer projeto presidencial da direita.
Do Carmo perdeu impulso
O início da pré-campanha parecia confirmar essa estratégia. Pesquisas divulgadas no primeiro trimestre chegaram a mostrar Maria do Carmo tecnicamente empatada com o senador Omar Aziz (PSD), líder das intenções de voto ao governo.
Naquele momento, a empresária aparecia como principal ameaça à liderança de Aziz e despontava como a novidade da disputa estadual.
Nos meses seguintes, porém, o cenário mudou.
Levantamentos mais recentes passaram a mostrar Aziz abrindo vantagem, enquanto Do Carmo deixou de disputar diretamente a liderança.
Dessa forma, passou a integrar um bloco de candidatos tecnicamente empatados pelo segundo lugar, ao lado do ex-prefeito de Manaus David Almeida (Avante) e do atual governador Roberto Cidade (União Brasil).
A mudança de posição nas pesquisas reduziu o impulso inicial da candidatura de Do Carmo justamente quando o PL buscava ampliar sua base de apoio.
Mais do que uma oscilação estatística, o movimento passou a alimentar dúvidas sobre a capacidade da pré-candidata de repetir o desempenho que a colocou, meses atrás, como a principal adversária de Aziz.
Alianças não avançaram
Ao mesmo tempo em que perdia fôlego nas pesquisas, a pré-candidatura também passou a enfrentar dificuldades políticas. O partido não conseguiu, por exemplo, consolidar alianças relevantes para a disputa estadual.
Enquanto adversários avançaram nas conversas com outras legendas, Do Carmo permaneceu praticamente restrita ao próprio PL, alimentando dúvidas sobre a viabilidade de uma coligação ampla.
Esse isolamento passou a ser apontado nos bastidores como um dos principais desafios da campanha.
Sem alianças consolidadas, cresce a dificuldade para Do Carmo ampliar tempo de propaganda, estrutura política e capilaridade eleitoral no interior do estado.
No entanto, as convenções ainda não avançaram e o prazo final para registro de candidaturas se encerra no dia 15 de agosto. Portanto, tem muita água para rolar debaixo da ponte do rio Negro.
Crise nacional e o Amazonas
O ambiente ficou ainda mais delicado quando a disputa interna do PL nacional atravessou a política amazonense.
A aproximação de Maria do Carmo com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou a ser interpretada por aliados de Flávio Bolsonaro como um sinal do alinhamento da pré-candidata ao grupo político que disputa espaço dentro do partido.
Embora as divergências entre Michelle e Flávio estejam concentradas na estratégia nacional da legenda, seus reflexos passaram a aparecer também no Amazonas, justamente em um estado onde o candidato da extrema direita pretendia construir um de seus principais palanques.
O episódio evidenciou que as divisões internas do PL já não se restringem a Brasília e começam a produzir efeitos sobre as articulações estaduais.
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Ataques dentro da própria direita
Ao mesmo tempo, a crise ganhou um novo capítulo nesta semana. As críticas públicas dirigidas à condução política de Maria do Carmo por integrantes do próprio campo bolsonarista ampliaram a percepção de que o partido enfrenta dificuldades para manter a unidade justamente no momento em que deveria concentrar esforços na consolidação das candidaturas.
Mais do que um conflito pessoal, os ataques reforçam a impressão de fragmentação entre lideranças que, em tese, deveriam compartilhar o mesmo projeto político.
Para um partido que pretende disputar o governo estadual, duas vagas ao Senado e servir de base para uma candidatura presidencial, a exposição pública dessas divergências representa um desgaste adicional.
Efeito sobre Flávio Bolsonaro
Para Flávio, o desgaste vai além da eleição estadual. A construção de uma candidatura competitiva à Presidência da República depende da existência de palanques sólidos nos estados, capazes de mobilizar lideranças regionais, atrair partidos aliados e ampliar a capilaridade da campanha.
Setores da indústria e do chamado “condado da Faria Lima”, uma referência aos ricos banqueiros de São Paulo, começam a largar a mão do filho 01 de Bolsonaro, que o culpam de “atrapalhar” as negociações” sobre o tarifaço de Donald Trump nas exportações brasileiras.
Além da queda nas pesquisas eleitorais principalmente pelo envolvimento direto com Daniel Vorcaro, do banco Marter.
Dessa forma, sem um palanque estadual forte, Flávio corre o risco de ver enfraquecida sua capacidade de capitalizar eleitoralmente um eleitorado que demonstrou, nas duas últimas eleições presidenciais, estar profundamente dividido.
Tempo para reorganização
Mas, o calendário eleitoral ainda oferece espaço para rearranjos políticos.
As convenções partidárias – 20 de julho a 5 de agosto – definição das chapas majoritárias e novas alianças poderão alterar o cenário até o início oficial da campanha a partir do dia 16 de agosto.
Ainda assim, a sucessão de episódios ocorridos desde o lançamento de Do Carmo transformou o Amazonas em um dos primeiros testes da capacidade do PL de administrar suas próprias divisões sem comprometer um dos palanques considerados estratégicos para a disputa presidencial de 2026.
Mais do que uma disputa regional, o que está em jogo é a capacidade da direita de chegar unificada a um estado cuja importância eleitoral cresce a cada eleição.
Se, há poucos meses, o Amazonas parecia reunir as condições ideais para servir de vitrine ao projeto presidencial de Flávio, hoje o estado se transformou em um laboratório das dificuldades enfrentadas pelo PL para manter a coesão interna e converter o capital eleitoral de Bolsonaro em um projeto político competitivo para 2026.
Foto: divulgação
