Governo do Brasil vê disputa eleitoral por trás do tarifaço de Trump

Planalto avalia que negociação com os EUA deixou de ser apenas comercial e passou a refletir interesses ligados às eleições de 2026.

Publicado em: 27/06/2026 às 08:09 | Atualizado em: 27/06/2026 às 08:11

O governo brasileiro passou a tratar as negociações com os Estados Unidos sobre o tarifaço como uma disputa que vai além do comércio exterior. Nos bastidores, integrantes da equipe do presidente Lula avaliam que a posição da Casa Branca também está inserida no cenário eleitoral brasileiro de 2026.

Mesmo assim, as conversas continuam. O objetivo do Brasil é convencer o governo americano de que um acordo comercial seria mais vantajoso para os dois países do que a manutenção da tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras.

Na quarta-feira (24), o Itamaraty afirmou que a medida “tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na Justiça brasileira”. A pasta acrescentou que segue negociando pelos canais diplomáticos para demonstrar que as políticas brasileiras não prejudicam o comércio com os Estados Unidos.

A avaliação do Planalto ganhou força após a resposta enviada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao senador Flávio Bolsonaro. Embora o parlamentar tenha pedido a revisão do tarifaço, Rubio manteve a posição dos Estados Unidos e reafirmou os argumentos usados pelo Escritório do Representante Comercial (USTR) para justificar as tarifas.

Na carta, Rubio também mencionou o cenário político brasileiro. O secretário afirmou que os Estados Unidos estão prontos para trabalhar com os líderes escolhidos nas eleições de 2026, após citar o otimismo de Flávio em relação ao pleito.

Contexto político

O prazo para um entendimento termina em 15 de julho. Até lá, representantes dos dois governos mantêm reuniões em busca de um acordo. Ainda assim, integrantes do governo acreditam que Donald Trump tende a evitar uma solução que possa fortalecer politicamente Lula às vésperas da campanha presidencial.

Após participar de um evento em São Paulo, nesta sexta-feira (26), o vice-presidente Geraldo Alckmin criticou a atuação de Flávio Bolsonaro nas negociações com Washington.

“Na realidade, são maus brasileiros que trabalharam contra o Brasil e agora estão tentando remediar o que foi feito”, afirmou.

A percepção do governo também considera a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada no fim de 2025. O documento estabelece como prioridade ampliar a influência americana na América Latina e reduzir o espaço ocupado pela China na região.

Nesta semana, Trump reforçou essa leitura ao compartilhar um artigo que classificou a eleição brasileira como um dos principais testes da política externa americana no continente. O texto defende que uma derrota de Lula favoreceria os interesses estratégicos da Casa Branca.

As tarifas propostas pelos Estados Unidos decorrem de investigação aberta pelo USTR. O órgão alega que o Brasil adota práticas comerciais consideradas desleais, incluindo políticas relacionadas ao Pix.

O governo brasileiro rejeita essa justificativa. Sustenta que a tarifa média aplicada aos produtos americanos é de 2,7% e afirma que a investigação representa uma tentativa de ingerência em assuntos internos, além de refletir uma política comercial protecionista dos Estados Unidos.

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Foto: reprodução/ICL Notícias