MPF cobra gestores públicos por mortos e sequelados da covid
Debate expõe omissão estatal nas ondas de mortes e abandono de vítimas no pós-pandemia
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 12/04/2026 às 11:21 | Atualizado em: 12/04/2026 às 11:21
A conta da pandemia ainda não fechou e, para milhares de brasileiros, ela sequer começou a ser paga.
Em debate no Conselho Nacional de Saúde nesta semana, o Ministério Público Federal (MPF) fez um alerta contundente: o país falhou, e continua falhando, com as vítimas da covid-19.
A cobrança vai além da memória. Trata-se de reparação concreta a pessoas que seguem vivendo com sequelas físicas e psicológicas, muitas delas sem qualquer assistência do poder público.
O diagnóstico expõe uma ferida aberta: a pandemia acabou no discurso oficial, mas seus efeitos persistem no corpo e na vida de quem sobreviveu.
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A conta ignorada da pandemia
O MPF defende a criação de políticas públicas voltadas à memória, verdade e reparação das vítimas da covid-19, com reconhecimento institucional das falhas do Estado brasileiro durante a crise sanitária.
A cobrança inclui medidas como:
– assistência médica continuada para pacientes com sequelas;
– suporte psicológico às famílias atingidas;
– reconhecimento oficial das vítimas e responsabilização de gestores;
– políticas de reparação para danos causados pela omissão estatal.
O que está em jogo não é apenas lembrar os mortos, mas garantir dignidade aos vivos que seguem enfrentando as consequências da doença, muitas vezes sozinhos.
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O silêncio do Estado diante dos sequelados
Passados anos do auge da pandemia, milhares de brasileiros convivem com a chamada “covid longa”: problemas respiratórios, neurológicos, cardiovasculares e transtornos mentais.
Mesmo assim, não há uma política nacional estruturada para atendimento dessas pessoas.
O resultado é um cenário de abandono:
– pacientes sem acompanhamento médico regular;
– filas no SUS sem protocolos específicos;
– ausência de políticas públicas voltadas à reabilitação;
– invisibilidade institucional das vítimas.
O alerta do MPF escancara uma realidade incômoda: o Estado brasileiro virou a página sem resolver o capítulo mais doloroso da crise.
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Amazonas: o símbolo mais brutal do colapso
No Amazonas, essa cobrança ganha um peso ainda maior.
O estado foi palco de um dos episódios mais dramáticos da pandemia no mundo: o colapso do sistema de saúde e a falta de oxigênio em hospitais, que levou pacientes a morrerem asfixiados em Manaus na segunda onda de contaminação, em 2021.
Até hoje, as consequências desse episódio seguem sem resposta à altura:
– famílias não receberam reparação adequada;
– sobreviventes enfrentam sequelas sem assistência contínua;
– a responsabilização de gestores públicos ainda é tema de disputa judicial.
O caso do oxigênio não foi apenas uma tragédia sanitária, foi uma falha estrutural dos governos daquele momento, que agora se reflete no abandono prolongado das vítimas.
Memória sem justiça é apagamento
Ao defender políticas de memória, o MPF não trata apenas de registros históricos. Trata de impedir que a negligência seja normalizada.
Sem memória, não há responsabilização.
Sem responsabilização, não há justiça.
E sem justiça, o sofrimento das vítimas se transforma em estatística descartável.
A cobrança feita no conselho de saúde é, na prática, um recado direto aos gestores públicos: a pandemia não acabou para quem ficou.
E ignorar isso é, mais uma vez, condenar essas pessoas ao abandono.
Foto: Altemar Alcantara/Semcom/Prefeitura de Manaus
