O beijo traidor de Menezes rompe aleluia na Sexta da Paixão

Coronel Menezes, que traiu Bolsonaro; que traiu Wilson Lima, virou malhação de traidor antes do Sábado de Aleluia

Menezes o Judas da Semana Santa de 2026

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 03/04/2026 às 12:23 | Atualizado em: 04/04/2026 às 08:59

Na liturgia política do Amazonas, a Semana Santa deste ano ganhou um enredo próprio, menos bíblico na forma, mas profundamente simbólico no conteúdo. Antes mesmo do Sábado de Aleluia, quando tradicionalmente se “malha Judas”, que traiu Jesus por 30 moedas de prata, um personagem já havia sido escolhido: o Coronel Menezes.

A “malhação de Menezes” não surgiu por acaso. Ela é fruto de mais um capítulo de um comportamento que adversários e antigos aliados passaram a classificar como recorrente: o da ruptura abrupta, da fidelidade provisória, da aliança que dura até a próxima conveniência.

Desta vez, o rompimento tem endereço certo. Menezes havia se comprometido com o governador Wilson Lima a se filiar ao União Brasil e disputar uma vaga à Câmara Federal sob a mesma trincheira política. O acordo visava consolidar palanque de deputado federal e musculatura eleitoral para 2026.

Mas, como no texto bíblico que inspira a metáfora, a ruptura veio antes do esperado.

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Aleluia antecipada

Se a tradição manda que Judas seja malhado no Sábado de Aleluia, Menezes antecipou o calendário. Rompeu antes. E rompeu de forma ruidosa.

Nas últimas horas, literalmente na calada da noite, o movimento que surpreendeu aliados foi a aproximação de Menezes com o ex-prefeito de Manaus David Almeida, figura que, há anos, era alvo frequente de críticas duras por parte do próprio coronel.

Em declarações públicas e registros nas redes sociais ao longo dos últimos anos, Menezes não poupou o prefeito. Em diferentes momentos, associou a gestão municipal a práticas de corrupção, uso indevido da máquina pública e desorganização administrativa. As falas, muitas delas contundentes, ajudaram a consolidar sua imagem como opositor direto de Almeida.

Agora, no entanto, o tom mudou. E a mudança, rápida, alimenta o simbolismo que cerca sua trajetória.

Um histórico de rupturas

O episódio não é isolado. Há um cipó condutor que remonta a alianças anteriores.

Por exemplo, Menezes construiu sua projeção política ancorado na proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Grudava no ex-presidente fazendo fotos para exibi-las nas redes sociais e gabar-se de privilégios. Durante quatro anos, foi um dos nomes mais identificados com o bolsonarismo no Amazonas, exibindo lealdade pública e constante alinhamento.

Mas, com o fim do ciclo de Bolsonaro na Presidência, o vínculo também se desfez. O distanciamento foi interpretado por antigos aliados como mais um gesto de abandono. Então, na verdade, uma repetição de padrão que agora se reproduz no cenário estadual.

Entre a fé e a política

Na narrativa bíblica, Judas é marcado não apenas pela traição, mas pelo contexto em que ela ocorre — um período de tensão, expectativa e transformação. A analogia, ainda que carregada de simbolismo, encontra eco no momento político vivido no Amazonas.

A Semana Santa, tradicionalmente associada à reflexão e aos ritos de passagem, coincide com um período de intensas definições eleitorais. Partidos reorganizam suas bases, lideranças testam alianças e movimentos estratégicos passam a ser decisivos.

Nesse ambiente, a figura de Menezes surge como um elemento imprevisível. Agora, alguém que transita entre campos opostos com rapidez e que, ao fazê-lo, redefine o tabuleiro político ao seu redor.

A malhação simbólica

Se haverá ou não um “Judas” oficial nas ruas neste Sábado de Aleluia, pouco importa para os bastidores da política. Para muitos atores locais, a escolha já foi feita.

A “malhação de Menezes” não se dará com bonecos de pano, mas com desgaste político, desconfiança acumulada e memória recente de declarações contraditórias.

Porque, na política, assim como nas narrativas mais antigas, não é apenas o ato da traição que marca um personagem. É a repetição dela.

E, neste ano, ao que tudo indica, a aleluia chegou mais cedo.

Imagem gerada por IA