Privilégio de poucos
O texto contrasta a exaustiva jornada do trabalhador brasileiro com os benefícios e folgas desproporcionais desfrutados por políticos e pelo Judiciário.
Publicado em: 01/05/2026 às 14:06 | Atualizado em: 01/05/2026 às 14:06
Por Flávio Lauria*
Comemoramos hoje o Dia do Trabalho, nascido quando milhares de trabalhadores, em Chicago, foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho, entre elas, a redução da jornada de trabalho de treze para oito horas diárias.
A partir daí vários países começaram a adotar a jornada das oito horas diárias. Dos 365 dias do ano, há 90 dias “improdutivos”: 52 repousos remunerados; 26 dias de férias (30 dias menos quatro domingos); e 12 feriados oficiais. Restam, portanto, 275 dias para trabalhar, isto para os pobres mortais que precisam trabalhar 44 horas por semana, durante 35 longos e exaustivos anos, com o que poderão garantir sua aposentadoria, descontando-se daí os períodos de inatividade por conta de eventuais desempregos.
Para garantirem os 30 dias de férias que lhes são de direito, os trabalhadores precisam enfrentar a sua labuta por 12 meses seguidos. É uma longa caminhada durante a qual as suas faltas ao trabalho precisam ser minuciosamente esclarecidas por atestados, sob pena de sofrerem os rigores da lei. Isso se dá porque ainda somos um país pobre, com excesso de oferta de trabalhadores em todos os níveis profissionais, e que patina em pífios níveis de crescimento há anos.
Sustentamos uma insuperável desigualdade social que, por não receber o tratamento que merece, mostra-nos que os pobres estão cada vez mais pobres enquanto os ricos continuam cada vez mais ricos.
No entanto há categorias profissionais que, a despeito de já possuírem e gozarem de tantas benesses garantidas por leis específicas, demonstram não estar ainda satisfeitas.
É o caso de suas excelências os senhores vereadores, deputados e senadores, e afirmo, nada contra a classe política, mas há muitos excessos.
E o mais grave, o poder Judiciário, que com seus penduricalhos, ganham por mês o que um trabalhador de salário mínimo passaria cinco anos para receber o que o privilegiado ganha em um mês.
Diferentemente dos mortais comuns, os senhores políticos donos de um mandato, têm direito a 60 dias de férias por ano. E tem mais, com todas as vantagens como se trabalhando estivessem.
A prática da corrupção, desvio de verbas, vencimentos nababescos para quem não trabalha, semana de trabalho reduzida a apenas três dias de atividades, pagamento de aluguel para proprietários de casas principescas, em outros tempos, levava ao repúdio da sociedade e à prisão; hoje, é prática usual e, ainda que condenada, pouco se faz para extirpá-la.
Pois bem, em uma conta rápida, um desses privilegiados, com direito a férias e que tenha completado cinco anos de trabalho, que tenha adotado uma criança e tiver o infortúnio de perder um primo por exemplo, passará 278 dias fora do batente, restando-lhe apenas 87 dos 365 dias do ano. Isso caso não tenha problemas de saúde em membros de sua família o que poderá afastá-lo por seis meses prorrogáveis por mais seis, ou seja, um ano!
Considerando que não trabalham aos sábados, domingos e feriados.
Esses privilegiados continuarão e talvez consigam um dia trabalhar somente no 1⁰ de maio, deixando os outros 364 dias como folga.
Aos trabalhadores, feliz Dia do Trabalho.
*O autor é mestre e doutor em administração pública.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
