Ataque de senadora a Mbappé expõe copa marcada por racismo nos EUA

Caso da paraguaia se soma a episódios envolvendo árbitro africano barrado nos EUA, seleção iraniana sob pressão e interferência de Trump na Fifa

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 08/07/2026 às 19:22 | Atualizado em: 08/07/2026 às 19:23

O ataque racista da senadora paraguaia Celeste Amarilla contra Kylian Mbappé não é um episódio isolado na Copa do Mundo de 2026.

A agressão contra o atacante francês se soma a uma sequência de casos que colocaram o torneio no centro de debates sobre racismo, xenofobia, autoritarismo, pressão política e interferência de governos em decisões esportivas.

A parlamentar xingou Mbappé após a vitória da França sobre o Paraguai, pelas oitavas de final.

Depois da repercussão, recusou-se a pedir desculpas e ainda tentou intimidar o jogador com a frase: “já prendemos o Ronaldinho”, em referência ao episódio de 2020, quando Ronaldinho Gaúcho ficou preso no Paraguai.

Mbappé reagiu sem transformar a agressão em espetáculo.

Chamou a senadora de indigna do cargo, disse que ela não representa o povo paraguaio e elogiou a campanha da seleção adversária.

A Federação Francesa de Futebol acionou as autoridades, e a promotoria de Paris abriu investigação por injúria racista.

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Quem é a senadora

Celeste Amarilla é senadora do Partido Liberal Radical Autêntico, o PLRA, uma das legendas tradicionais do Paraguai e de oposição ao governo.

Apesar de integrar um partido identificado historicamente como liberal, Amarilla tem perfil marcado por declarações duras e frequentes polêmicas públicas.

Desta vez, porém, a fala ultrapassou a disputa política interna. O governo paraguaio se distanciou das declarações da senadora e afirmou que elas não representam a posição oficial do país.

Copa sob pressão política

A copa dos EUA , Canadá e México já vinha acumulando episódios delicados antes do ataque contra Mbappé.

Um deles foi a barração do árbitro somali Omar Artan, eleito melhor árbitro africano de 2025. Ele tinha visto válido, mas foi impedido de entrar nos Estados Unidos e acabou fora do mundial.

A Fifa atribuiu o caso às autoridades americanas, em meio à política autoritária do governo Donald Trump.

A seleção do Irã também foi uma das mais atingidas por restrições de entrada nos Estados Unidos.

Relatos da imprensa internacional apontaram negativa de acesso a integrantes da comissão técnica e problemas com torcedores iranianos, dentro do ambiente de tensão geopolítica criado pela política externa americana.

Trump, Balogun e Raphael Claus

O caso mais explosivo envolveu a seleção dos Estados Unidos.

O atacante Folarin Balogun foi expulso pelo árbitro brasileiro Raphael Claus contra a Bósnia, após revisão do VAR.

Pela regra, deveria cumprir suspensão automática. Mas a Fifa suspendeu a punição e liberou o jogador para enfrentar a Bélgica.

Donald Trump admitiu que pediu à Fifa a revisão do caso. A Bélgica recorreu, mas teve o pedido negado.

A Uefa acusou a Fifa de cruzar uma “linha vermelha”, enquanto parlamentares europeus passaram a cobrar investigação sobre a atuação de Gianni Infantino.

O próprio Raphael Claus virou alvo de patrulhamento político.

Trump questionou a decisão do árbitro brasileiro, e a Fifa precisou sair em defesa dele, afirmando confiança em sua atuação e no quadro de arbitragem.

Racismo e poder

O fio que liga esses episódios é a tentativa de usar a Copa do Mundo como palco de força política.

No caso de Mbappé, a resposta do jogador inverteu a lógica da provocação.

Em vez de dar centralidade à agressora, o craque da França expôs o racismo e recolocou o foco sobre quem deve responder por ele.

A copa de 2026, que deveria ser lembrada pelo futebol, passou a ser marcada também por uma pergunta incômoda: até onde governos, autoridades e dirigentes podem interferir no esporte antes que a competição perca sua promessa de igualdade dentro de campo.

Foto: reprodução/redes sociais.