Grade do novo ensino médio dificulta na hora do Enem, acusam alunos
Estudantes relatam falhas no currículo e improvisam estudos em casa com videoaulas e ajuda da família.
Publicado em: 16/10/2025 às 09:05 | Atualizado em: 16/10/2025 às 09:07
No Amazonas, estudantes da rede pública afirmam que o novo ensino médio os deixou menos preparados para o Enem. A Secretaria de Educação foi procurada, mas não respondeu sobre as falhas apontadas por alunos.
O cenário se repete em outros estados do país, segundo matéria da Folha de S. Paulo. Jovens relatam lacunas em matérias obrigatórias, resultado da redução da carga horária provocada pela reforma de 2017, implementada em 2022 e parcialmente revista em 2024.
A divisão do currículo entre base comum e itinerários formativos ampliou a liberdade de escolha, mas deixou vazios de conteúdo. Alunos das cinco regiões relatam viver em um “limbo pedagógico”, com itinerários que pouco ajudam no vestibular.
“Praticamente não estava aprendendo no colégio. Tive que estudar todas as matérias por conta própria, mesmo trabalhando”, contou Maria Eduarda Gutens Escobar, 18, de Porto Alegre. Ela lembra que, em 2023, tinha cinco aulas de português e matemática por semana, mas o número caiu para três. “Ao invés de ter matemática ou português, eu tinha expressão corporal — chegamos a brincar de pega-pega em aula”, relatou.
Em São Paulo, Alanna Rodrigues, 17, recorre às redes sociais para compensar o que falta. “Faço aulas pelo YouTube para completar o que falta na escola. Quando chego das aulas de balé, continuo estudando até tarde”, disse.
No Recife, Daniel de Lima, 18, tem a ajuda dos irmãos professores. “Sou privilegiado porque eles me ensinam em casa. Na escola faltam tempo e recurso”, contou. Mesmo assim, ele se sente despreparado: “Se o professor tenta ensinar algo do Enem que não está na grade, a direção chama a atenção dele.”
Em nota, secretarias de São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia afirmam seguir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e garantem que mantêm a carga horária mínima em todas as disciplinas.
Maria Eduarda, hoje caloura de Direito na UFRGS, recorda a insegurança no Enem. “Fiquei nervosa no vestibular porque vi um monte de gente de cursinho particular, uniformizada, e pensei: ‘Meu Deus, eu não vou conseguir passar’.”
A estudante Hellen Santiago, 17, bolsista em uma escola particular, também sente os efeitos do novo modelo. Até o início do segundo ano, ela estudava na rede pública em Cuiabá. “A diferença de estrutura e conteúdo é gritante”, afirmou.
Saiba mais na matéria de Bárbara de Sá, da Folha de S. Paulo.
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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
