Licenciamento ambiental: o risco da riqueza que não fica na Amazônia
A flexibilização das leis ambientais pelo Congresso prioriza a extração de recursos, mas ignora a contrapartida social e orçamentária aos amazônidas.
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 02/03/2026 às 08:48 | Atualizado em: 02/03/2026 às 08:50
O avanço da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que entrou plenamente em vigor em fevereiro, acendeu um alerta vermelho no Amazonas.
Rebatizada por críticos como “projeto da devastação”, a medida é o reflexo de um Congresso Nacional que, sob o manto da desburocratização, parece mais interessado em facilitar a saída de madeira, ouro e minérios do que em garantir a sobrevivência digna do amazônida.
A celebração de alguns governos estaduais pela agilidade nos processos contrasta com a realidade orçamentária.
Enquanto o país discute emendas bilionárias, o recurso destinado ao combate efetivo às queimadas e à fiscalização da exploração predatória continua aquém das necessidades da região.
Para o povo da floresta, a conta é desigual: o ônus da preservação é local, mas o bônus da exploração é exportado.
Justiça e soberania
A alegoria do amazônida morrendo sobre minas de cassiterita ou nióbio sem ter o pão de cada dia é a face mais cruel desse desequilíbrio.
A nova legislação permite a autodeclaração e licenças automáticas para diversos empreendimentos, o que pode acelerar projetos, mas também abre brechas para atividades que não deixam um centavo em direitos sociais, saúde ou infraestrutura para as comunidades locais.
O perigo real dessa lei se materializa em quatro exemplos de risco imediato, documentadas pelo BNC Amazonas:
- – Garimpo no Madeira: a facilitação de licenças ameaça intensificar a exploração de ouro nos rios do sul do Amazonas, notadamente no rio Madeira, sem estudos profundos sobre a contaminação por mercúrio que afeta a saúde dos ribeirinhos.
- – Devastação da BR-319: a pavimentação da rodovia, sem os devidos estudos de impacto rigorosos, tende a aumentar a exploração madeireira ilegal e o garimpo, além de ataques aos territórios dos povos originários.
- – Hidrovias para o agro: a concessão de hidrovias estratégicas, como as do Madeira, Tapajós e Tocantins, à iniciativa privada e ao agronegócio, prioriza o escoamento de cargas em detrimento da sustentabilidade dos ecossistemas fluviais.
- – Petróleo na foz: a extração de petróleo na foz do rio Amazonas avança sem a certeza absoluta de que um eventual vazamento não destruiria a biodiversidade e o modo de vida de milhares de pessoas na região.
Para o BNC Amazonas , a defesa da Amazônia passa, obrigatoriamente, por tratar o cidadão nortista com os mesmos direitos orçamentários das outras regiões.
Não se faz preservação com fome.
Se o licenciamento ambiental for apenas uma ferramenta para facilitar a retirada de riquezas naturais sem gerar desenvolvimento humano real, estaremos apenas repetindo ciclos históricos de exploração.
Insegurança jurídica
O temor da judicialização, mencionado por gestores estaduais, é real.
Entidades ligadas ao meio ambiente observam o cenário onde a pressa legislativa pode gerar um efeito reverso: o travamento de obras estratégicas devido a falhas na proteção de direitos fundamentais.
A verdadeira pauta política para a Amazônia deveria ser o equilíbrio, onde a floresta em pé valha mais que a derrubada, mas onde o povo que a guarda tenha condições de soberania e sobrevivência.
Leia mais na Folha de S. Paulo.
Leia mais
Indígenas pedem ao STF derrubada de licenciamento ambiental especial
Foto: Polícia Federal/divulgação
