Chapa quente na relação entre Lula e Alcolumbre
Crise entre Planalto e Congresso escala com suspensão de emendas após Alcolumbre desafiar Lula na Lei da Dosimetria.
Publicado em: 10/05/2026 às 08:37 | Atualizado em: 10/05/2026 às 08:37
A relação entre o Palácio do Planalto e o presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AM), atingiu o ponto máximo de fervura. O que antes era uma aliança pragmática se transformou em uma “guerra fria” de retaliações após a promulgação da Lei da Dosimetria, que beneficia diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro e os condenados pelos atos de 8 de janeiro.
A Retaliação de Lula: O “Gelo” e o Travamento de Verbas
De acordo com informações de bastidores (coluna Lauro Jardim), o presidente Lula decidiu subir o tom contra Alcolumbre. Como resposta à promulgação da Lei da Dosimetria feita pelo senador, o governo federal iniciou uma estratégia de isolamento:
Corte de Diálogo: Lula suspendeu agendas diretas com o senador.
Contingenciamento de Emendas: O Planalto começou a segurar a liberação de recursos indicados por Alcolumbre e seus aliados mais próximos no União Brasil.
Fortalecimento de Adversários: O governo sinaliza apoio a alas rivais do senador dentro do próprio partido e em sua base eleitoral.
O Estopim: A “Digital” na Lei da Dosimetria
A crise se agravou quando o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto que altera o cálculo das penas (Lei da Dosimetria). Como mostrado em matérias anteriores do BNC Amazonas, Lula se recusou terminantemente a assinar a sanção da lei, afirmando que não queria “suas digitais” em um texto que favorece golpistas e Bolsonaro.
O Papel de Alcolumbre: Pela Constituição, se o presidente não sanciona uma lei após a derrubada de um veto em 48 horas, a obrigação recai sobre o presidente do Senado. Alcolumbre não apenas cumpriu o rito, como o fez de forma célere, o que foi interpretado pelo Planalto como um gesto deliberado de alinhamento à oposição bolsonarista.
O Veto a Messias: A Ferida Aberta
Um capítulo crucial dessa disputa envolve o atual ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias.
Alcolumbre, que preside a CCJ e tem influência total sobre as indicações ao STF, vem barrando silenciosamente o avanço de Messias como um nome de consenso para futuras vagas em tribunais superiores ou até mesmo para a manutenção de sua influência no Judiciário.
Messias é o principal articulador jurídico de Lula e foi o responsável pelo parecer técnico que embasou o veto à Lei da Dosimetria. Alcolumbre enxerga no ministro a barreira ideológica que impede o Senado de ter mais controle sobre o “equilíbrio de penas” no país.
A Bancada do Amazonas no Fogo Cruzado
Conforme análise do BNC, a postura de Alcolumbre reflete o comportamento da bancada amazonense. Na votação que derrubou o veto de Lula, oito dos 11 parlamentares do Amazonas (incluindo os senadores Omar Aziz e Eduardo Braga, teoricamente aliados de Lula) votaram contra o governo.
O Fator Eleitoral: Analistas apontam que Alcolumbre e a bancada do AM agem de olho no eleitorado de Manaus, que é majoritariamente conservador. O medo de ser visto como “inimigo de Bolsonaro” em 2026 fala mais alto que a fidelidade à base governista.
A Resposta Judicial (O Contra-ataque)
Enquanto Lula retalia no orçamento, o governo também atua no STF. A suspensão da lei por Alexandre de Moraes — sorteado relator após ações do PSOL e da ABI — é vista pela oposição como uma “ajuda combinada” para neutralizar a derrota que o governo sofreu nas mãos de Alcolumbre no Legislativo.
Leia mais na coluna do Lauro Jardim em o Globo
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
