Aguinaldo Rodrigues, da Redação

 

Em longa entrevista ao jornal O Globo nesta terça, dia 8, à repórter Catarina Alencastro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, explicita a política do setor que vai ser empregada no governo Jair Bolsonaro (PSL).

O modo de gestão das unidades de conservação do meio ambiente vai mudar. A permissão para que nelas sejam realizadas atividades econômicas, gerando lucro para as comunidades, é uma dessas mudanças.

Na opinião do ministro, restrições impostas pela classificação atual das unidades estão deixando passar a oportunidade do “extrativismo bem feito”.

Salles afirmou que a questão conservacionista do meio ambiente vai ser vista com os olhos da realidade, sem “dogmatismo ideológico, […] sem escolher modelos pré-concebidos”.

Ele aventa a possibilidade até de o Estado terceirizar o controle territorial das reservas de conservação diante de eventuais dificuldades logísticas, por exemplo. Salles critica a postura atual do “aqui não entra ninguém. O que acontece? Entram os ilegais”.

 

Ibama fora do esquadro

O ministro deixa claro que o modelo de gestão empregado pelo Ibama não é o que lhe agrada. Tanto que sua crítica a um ato da direção do órgão foi pivô da demissão da presidente nesta segunda, dia 7.

“Você está enterrando dinheiro que não acaba mais, está mal gerido. Não falta recurso. 30 milhões para aluguel de veículo, 170 para gasto de helicóptero. Você está enterrando dinheiro num modelo de fiscalização que não funciona”, afirmou.

Na abordagem a produtores rurais, Salles orienta que os fiscais do Ibama usem de “bom senso”, porque eles, os produtores, “não são anjos nem bandidos”, disse.

Fez questão de dizer que isso não significa que a fiscalização vai ser frouxa. “Ao contrário. Nós vamos ser muito rigorosos com o crime ambiental. Só que eu não vou rotular situações em que não houve crime nenhum como criminosas simplesmente para poder fazer oba-oba e dar manchete em jornal”, afirmou.

Segundo Salles, sobre a atuação de fiscais, “[há] um mundaréu de auto de infração e não tem foco. Você está olhando para um monte de coisa que não precisava olhar”.

 

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Quanto à agenda climática, o ministro é direto em afirmar que “temos muito mais coisa feita aqui no Brasil do que efetivamente benefícios e reconhecimentos internacionais proporcionais”.

“Nós fizemos muito, nos comprometemos muito e colhemos pouco. Agora é a hora de colher, até para você ter condições de incentivar daqui por diante a manutenção e a regularidade dessas ações de preservação ambiental”, complementa.

A forma de pensar de Salles bate com o pensamento de figuras como o prefeito de Manaus, Arthur Neto (PSDB), e do senador Omar Aziz (PSD), líder da bancada parlamentar do Amazonas no Congresso Nacional.

Em síntese, defendem que o Amazonas seja recompensado pelo sacrifício de seu povo na preservação da Amazônia.

“Então, está na hora de mais capitais jorrarem nas torneiras do Brasil, nas torneiras do Amazonas, nas torneiras de Manaus”, afirmou Arthur.

 

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O prefeito da capital da Zona Franca de Manaus (ZFM) defendeu essa ideia na conferência mundial das nações unidas sobre mudança climática, a COP-23, em Bonn, na Alemanha, no final de 2017.

Para Arthur, recursos do exterior devem bancar o esforço de manter o polo industrial da ZFM, de nível internacional, e 98% da floresta em pé para contribuir com o clima mundial.

“O desenvolvimento econômico e social de uma região baseado nos princípios da sustentabilidade, do respeito ao meio ambiente, deve ser uma pauta perene”, disse.

Assim como o ministro do Meio Ambiente, Arthur tem a convicção de que a ZFM e a Amazônia não têm a devida contrapartida internacional.

 

CBA e uma nova frente

No ato de reconhecimento da personalidade jurídica do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) após uma luta de 16 anos, em maio de 2018, Omar Aziz considerou que a região ganhava uma nova zona franca.

“É um novo momento para o desenvolvimento no conhecimento da Amazônia e abre a possibilidade de novas atividades econômicas no estado, como a produção de cosméticos e produtos fitoterápicos, cuja sua matéria-prima pode ser facilmente encontrada na região”, afirmou à época.

O ministro Salles resumiu assim esse novo pensamento quanto à preservação da Amazônia e seu meio ambiente:

“Aquela ideia do pagamento por serviços ambientais, precisa vir dinheiro para cá. Nós precisamos criar uma fórmula simples, factível, tangível e inteligível para as pessoas que estão na ponta de como é que ela vai poder receber recursos de verdade em razão dos seus sacrifícios, das suas atitudes, das suas boas práticas”.

 

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Árvore em pé, dinheiro na mão

Para o ministro, o desmatamento zero, como querem entidades internacionais, pode existir. “Desde que se pague por isso […] Quando você impede o livre usufruto da propriedade e do direito de produzir você tem que automaticamente colocar à disposição da sociedade um instrumento de compensação financeira para esses produtores”.

O pensamento do ministro avança também sobre a questão ambiental nos centros urbanos. Para ele, a ideia é captar recursos externos para isso. “Trazer dinheiro, e não lição de moral”.

Ele complementa a resposta a esse tema dizendo que foi para isso que criou a secretaria de assuntos internacionais.

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil