À espera dos novos heróis
Publicado em: 04/12/2012 às 00:00 | Atualizado em: 04/12/2012 às 00:00
Wilson Nogueira*
É paradoxal constatar que o Brasil, a sexta economia do mundo, com status de país em desenvolvimento, continue entre as nações de “nível médio” em educação, segundo relatório da Unesco, instituição da ONU para o desenvolvimento da cultura e da educação. A constatação soa, para os que se incomodam com o vexame, como um alerta: o de que é preciso mudar a forma do tratamento que o estado e a sociedade dão a essa questão. O primeiro passo é pautar a educação como assunto importante do cotidiano, assim como se tem tratado a Copa do Mundo de Futebol.
Tornar a educação tema prioritário das ações e conversas dos governantes, dos professores, dos estudantes, dos pais de alunos e dos “papos de boteco” seria um grande avanço em relação ao passado e ao presente. Lembramos que foi somente a partir da Constituição de 1988 que o país mobilizou suas estruturas para pôr a juventude na escola e para reduzir a repetência. A partir de 2000, passou a lutar para melhorar a qualidade do ensino. Os recentes indicadores do Ideb mostram, no geral, melhora no desempenho escolar, mas revelam, também, as desigualdades regionais. Os Estados do Norte e do Nordeste, os mais pobres, enfrentam dificuldades para subir de posição. Algumas cidades dessas regiões até retrocederam.
É fato, portanto, que o Poder Público deve ampliar e aperfeiçoar os seus investimentos e mecanismos de ação, para acelerar as conquistas e corrigir as distorções provocadas pelo tempo perdido. Não se trata de tarefa fácil, principalmente porque sua execução depende de vontade política. E, infelizmente, existem poucos políticos com vontade de mudar as políticas educacionais do país. Daí a importância de se colocar a educação nos debates e nas conversas do dia a dia. Essa prática gera opinião pública; a opinião pública, por sua vez, pressiona quem decide políticas públicas. Assim agem os cartolas do futebol nacional e internacional para arrancar dinheiro público para realizar empreendimentos privados.
Ao contrário dos temas futebolísticos, os da educação passam ao largo da cobertura jornalística, das redes sociais e das conversas da esquina. Uma partida de futebol que terminou empatada tem mais importância, para a mídia, que o final de uma competição internacional de matemática para estudantes do ensino médio. Penso que, caso os programas, projetos e eventos que valorizam educação recebessem a mesma deferência, conseguiriam mais apoio e participação da sociedade. Lembro, a título de ilustração, eventos que reúnem milhares de leitores no Amazonas: a bienal do livro do Amazonas, as feiras de livros e saraus literários do Sesc, o Flifloresta, as quartas literárias e a liquidação de fim de ano do estoque da Livraria Valer. Em pleno domingo, milhares de leitores foram até a Valer garimpar livros abaixo do preço de mercado, mesmo sabendo que a promoção se estenderá até sábado.
Há uma vontade latente por educação, mas falta estímulo para que ela aflore e permaneça como projeto coletivo. A esse projeto não escapa a luta por escolas bem equipadas, professores bem pagos, estudantes com metas bem definidas a cumprir e pais de alunos inseridos no processo educacional. Países que estão no topo da educação mundial, como Coreia do Sul e Finlândia, há anos se esforçam para cumprir o dever de casa com louvor. Compreenderam que educação e desenvolvimento andam juntos. Também se esmeram para ser bons de futebol.
Aliás, dia desses, soube, por intermédio de um professor, que ainda hoje, em determinadas “instituições de ensino” do Amazonas, jovens “bons de bola” recebem avaliações generosas para defender o time da escola, quando o melhor mesmo seria incentivá-los a estudar com afinco, para que servissem de “bons exemplos” à formação intelectual e moral dos seus colegas. Felizmente há professores, jogadores e estudantes que valorizam tanto a bola quanto a escola e os livros. São esses os heróis que a mídia precisa revelar para a sociedade. Com urgência, por favor.
*O autor é jornalista
