A malhadeira da Loura

Publicado em: 06/02/2011 às 00:00 | Atualizado em: 06/02/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

A passageira ficou numa posição irresistível para qualquer olhar masculino. E não era uma passageira qualquer. Era a Loura da Madrugada. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, antes de o sol aparecer, é o clarão de sua pele e o brilho dourado de seus cabelos que primeiro iluminam a parada onde tomo o busão, na avenida das Torres, à altura do conjunto Boas Novas.

Lembro-me do dia 26 de agosto de 2010, primeiro dia em que ela pegou o ônibus, o 457. Guardei a data não por interesse, senhores. É que, naquele dia, foi minha estreia na linha. E, por coincidência, era o primeiro dia dela também. Ela dúvida sobre o trajeto. Eu, idem! Mas foi ela quem comentou o assunto, talvez querendo que a tranquilizasse. Então, mesmo sem ter certeza, respondi que o ônibus passava pela Bola do Coroado, sim.

Nesse dia, senhores, primeiro e único em que falou comigo, o cheiro dela chegou na frente. Exalava mais forte e atraente do que cupuaçu no pé da planta. Trançados como roupa lavada e espremida, pendurados no ombro esquerdo, seus cabelos (por enxugar) deixavam transparente a blusa de malha branca de sua roupa de trabalho.

Seu andar me chama atenção. Ela caminha em passos curtos e apressados. A pressa é compreensiva: é exigência para quem pega busão de madrugada, mas os passos miudinhos suponho que sejam impostos pelas calças jeans que costuma usar, coladas do tornozelo à cintura. E, ao usá-las, deixa a viagem e o começo do dia ainda mais especiais.

No dia que ficou na posição irresistível, não me passava pela cabeça o que acontecia com ela. Aliás, até hoje, não sei. Sei apenas que quando ela entrou no ônibus, sentou-se e escorou a cabeça no banco da frente, como quem quer tirar uma soneca. Foi nessa hora que outros passageiros começaram a se entreolhar e rir.

Depois disso, tive o impulso de deixar meu lugar para ver o que estava acontecendo, mas controlei a curiosidade. Imaginei uma série de coisas. Em princípio achei que ela estava passando mal. Mas logo afastei a hipótese, afinal, se estivesse precisando de ajudando (AJUDA), haveria fila para o socorro.

O Negão (parceiro de parada. Não sei o nome dele, porque, desde que passei a embarcar ali, ele já era conhecido assim: pela cor da pele. O Negão, por sua vez, não me conhece. Poderia me chamar de índio, mas me trata como Vizinho e, vez ou outra, usa de formalidade ao me tratar de senhor), que mora perto da casa da Loura, cochichou-me: “Ela está porre. Na casa dela, foi a noite toda de barulho”.

A informação do parceiro ainda não explicava as razões das risadas. E não foram poucas. Até o Velhinho da Saca (conheço-o assim porque é como sempre o vejo: com uma saca pendurada nas costas) passou por ela, riu e comentou para todo mundo ouvir: “Parece uma malhadeira”.

Depois dessa, fiz um cálculo e tracei o raciocínio: “vou me levantar da cadeira do busão três paradas antes do meu ponto; vai dar tempo de me aproximar dela, olhar disfarçadamente e ver a causa dos risos”.

Ao me aproximar da Loura da Madrugada, inclinada, exibindo as costas nuas, vi a piada: não era grande coisa. É que o cós da calça da moça desceu demais, distanciando-se da calcinha, encravada entre as montanhas carnudas de seu traseiro. E só então entendi o que o Velhinho da Saca havia falado: a calcinha dela tinha mais buraco do que malhadeira atacada por piranha.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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