A regra de ouro
Publicado em: 21/11/2012 às 00:00 | Atualizado em: 21/11/2012 às 00:00
Tenório Telles*
Dois fatos marcaram a minha infância e contribuíram para fundar o meu ser e a minha história. O primeiro, em menino, foi uma desobediência que resultou numa “surra” inesquecível. Naquele tempo a “peia” fazia parte dos métodos de educação familiar, o que não significa que todas as famílias fizessem uso desse recurso. Trata-se de uma história simples: Cheguei em casa com um brinquedo, abandonado por um vizinho. Mamãe, ao me ver brincando com o objeto, foi logo me interrogando sobre a sua procedência. Lembro-me até hoje da cena:
– Meu filho, de quem é esse brinquedo?
– Mãe, achei no terreiro…
– Você vai devolver… se estava lá, tem dono.
– Mamãe…
Não tive tempo nem de completar a explicação. Ela foi logo atalhando:
– Já lhe ensinei para não pegar o que não é seu.
Pegou-me pelo braço e com o cinturão em punho, aplicou-me algumas “lapadas”, dizendo-me para nunca mais trazer para casa o que quer que encontrasse na rua… não pegar o alheio. Para mamãe, a afirmação o “achado não é roubado” não funcionava. Para ela, o “achado” tinha dono. A “pisa” era seguida de conselhos e recomendações para não repetir o erro. Era uma punição acompanhada por uma ladainha de admoestações. Ao término de tudo, a recomendação final:
–Vá deixar o que você pegou no mesmo lugar onde você achou…
Constrangido e envergonhado:
–Mas, mamãe…
–Preciso repetir o que já lhe disse ou você quer “apanhar” novamente… Vá agora!
Enxuguei as lágrimas e, em silêncio e humilhado, apanhei o carrinho que havia “achado” e fui deixar no mesmo local onde o encontrara. Estava triste com minha atitude. Mamãe estava certa: aquele brinquedo poderia ter sido esquecido pelo seu dono. Eu é que entendi que estava perdido, o que não me dava o direito de me apropriar dele. Ainda ouço a voz de mamãe: “Nunca pegue o que não é seu”.
A outra experiência marcante não resultou em “surra”, mas ficou para sempre em minha lembrança. Jovem, impetuoso e achando que podia tudo, fui arrogante, desconsiderei seus conselhos e disse-lhe coisas que a entristeceram. Decidira sair de casa. Mamãe, com os olhos marejados de lágrimas, disse-me algumas palavras que calaram no meu coração:
– Como você acha que me sinto, como mãe, depois de ouvir isso de ti?
Surpreendido e percebendo meu erro, calei-me.
– Meu filho, um dia você vai ter filhos e não vais gostar de ser tratado assim.
Fiquei sem voz, paralisado pelo arrependimento. Do seu jeito simples, emendou:
– Pense bem, não devemos fazer coisas que não gostaríamos que fizessem com a gente. Tome cuidado porque o mundo dá muitas voltas e pagamos por tudo o que fazemos.
Mamãe silenciou e foi cuidar das suas coisas. Fiquei em desassossego, pensando no que fizera e em suas palavras: “não devemos fazer coisas que não gostaríamos que fizessem com a gente”. Passei dias pensando no significado das palavras de mamãe. De onde ela tirara aquela ideia? Anos depois, lendo o filósofo Confúcio, descobri que ele ensinara a seus discípulos, há mais de dois mil anos, a mesma coisa: “Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem”.
Intrigou-me o fato de mamãe ter expressado conceito semelhante ao do sábio chinês, especialmente pelo fato de não ser afeita à leitura e nunca ter nem ouvido falar em Confúcio. Com o passar do tempo fui descobrindo que essa verdade é milenar e vem sendo transmitida através dos séculos, mantendo-se viva na memória dos povos. Pela sua sabedoria e valor moral, passou a ser chamada de “a regra de ouro”, transformando-se num fundamento indispensável das sociedades, quase uma lei do convívio humano, presente em todas as civilizações. Plantar essa semente no coração das crianças e dos jovens é condição para a construção de uma sociedade melhor, mais humana, ética e tolerante. As reprimendas e até as surras de mamãe ajudaram na minha formação. Ser-lhe-ei eternamente grato, entretanto, por ter me ensinado “a regra de ouro” – que floresceu em mim e norteia minhas ações. Esse ensinamento transformou-se em uma estrela que brilha na minha consciência e me guia no meu caminhar pelas arriscadas veredas deste grande mundo.
*O autor é escritor
