Da camiseta à ação

Publicado em: 14/03/2013 às 00:00 | Atualizado em: 14/03/2013 às 00:00

Ivânia Vieira*

Os discursos ainda são marcados pelo apaziguamento das tensões e os dados da realidade escapam. Ao final, o revelado hoje pede mais reação do movimento feminista do Amazonas. Um dos desafios é como colocar a cabeça de fora, para além das alianças político-partidárias em nome da governabilidade. As líderes das organizações feministas e de defesa dos direitos da mulher, em generosa fatia, vivem o dilema de atender às tarefas dos partidos e de outras organizações nas quais atuam ou os pedidos de socorro das mulheres em situação de vulnerabilidade.

Na quase totalidade dos encontros ocorridos em Manaus antes, durante e logo após o 8 de Março deste 2013, essa foi a tônica: A discrepância entre as ações e atenção às mulheres de Manaus e as dos outros 61 municípios amazonenses. A pauta nesse campo cresce sem resposta quanto a antigos questionamentos sobre o que foi feito até agora. Há uma tentativa, da fala oficial, de sofismar sobre avanços, desde o número de delegacias de crime contra a mulher (a “delegacia da mulher”) até  à constituição de núcleos multiprofissionais capacitados para a atenção integral das mulheres vítimas da violência doméstica.

A moradia do sal está no movimento. Brota dele o tempero dessas frentes de luta por conquistas efetivas para as mulheres no interior do Amazonas. Quanto mais as líderes aceitarem ser asfixiadas silenciosamente pelos comandos partidários e pelos pactos políticos feitos mais distante estará a vitória. Os encontros datados vão repetir lamentações, a sensação de dever cumprido e, logo em seguida, o jornal, a tevê ou o rádio estampam, nas brechas possíveis, a outra realidade. A do abandono, da omissão e da invisibilidade gigantesca mantida sobre as dores dessas mulheres, sobre as vidas sequeladas, sobre as vidas eliminadas.

O pacto exigido hoje é do posicionamento firme pelo fim da violência contra a mulher no Estado do Amazonas. E esse acordo precisa ter mais vigor, sair dos gabinetes, ganhar as ruas, dizer não ao conformismo e às práticas violentadoras. O tarefismo exacerbado das mulheres – luzes do movimento feminista estadual – as afasta do foco de luta, reduz o ecoar da voz da resistência e amplia prazos de respostas a situações que já deveriam ter sido resolvidas.

Passa também por esse pacto as construções com o Jornalismo, as práticas de mídia, a cultura e pela compreensão das líderes feministas que os governos, o parlamento, o judiciário, a academia, precisam ser mais incomodados. O direito a uma vida sem violência não pode ser apenas frase de intenção pintada na camiseta. Tem que sair dela. É a bandeira da batalha.

*Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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