Fio de água
Publicado em: 22/01/2014 às 00:00 | Atualizado em: 22/01/2014 às 00:00
Ivânia Vieira*
Na primeira noite, eles chegaram mansamente, elogiaram as notícias e deram tampinhas de congratulações pelo jornalismo bem-feito; na segunda noite, eles chegaram apressadamente e não olharam mais nos olhos dessa gente jornalista nem deram tapinhas festivos nem disseram boa noite. Pareciam raivosos. Ah não disseram nada. A decisão já estava tomada.
Na terceira noite, não houve embate de repórter e assessor pelo Facebook nem recadinhos ameaçadores do tipo “sabe quem paga teu salário?”, “sabe de quem sou amigo?” Um silêncio gritante se estendeu por algumas horas e, por essas horas, também havia festa tímida pelas sementes de palavras espalhadas em forma de notícia. Então, os fantasmas do silêncio se soltaram, ganharam corpo e freneticamente arrancaram da terra as sementes, amordaçaram as bocas que teimosamente insistiam em se pronunciar. Congelaram os textos.
Os fantasmas se multiplicaram nesta terra. E gritavam: “é preciso não falar”, “não ouvir”, “não ver”, “não sentir”, “não perguntar sobre o porquê das coisas!” O terreno movediço, encharcado de desilusões não revelava à primeira vista qualquer possibilidade de nele nascer algo novo e bom. A praga dos fantasmas estava estendida, com braços longos e prontos para dar o bote mortal.
O terreno contaminado escondia um fio de água que insistia em abrir fenda, seguir adiante, enfrentar fantasmas e ousadamente perguntar por que? O fio é tênue. Por vezes parece quebrar, aceitar aqueles tapinhas como trunfo de vida e se acomodar na poltrona palaciana de uma ordem que não advoga o justo, recolhendo a palavra para viver a morte em berço esplêndido.
Os olhos mais atentos poderão ver que mesmo com muitas sementes destruídas e a contaminação em alto grau, o fio de água vai em frente. Abre trilha a semeadores e tempera a terra em doses divinas para, reabastecida, enfrentar os fantasmas da noite. Amanhã tem sol, tem estrelas e tem lua para os que exercitam a liberdade. O universo não é para fantasmas.
*A autora é jornalista de A CRÍTICA e professora no Curso de Comunicação da Ufam.
