Infância violada

Publicado em: 18/03/2009 às 00:00 | Atualizado em: 18/03/2009 às 00:00

Ivânia Vieira*

Amontoam-se, a cada dia, os relatos e registros oficiais de meninas e meninos violados. Cresce, no âmbito público, o número de casos de meninas grávidas por atos de estupros praticados por seus pais, padrastos, tios, avôs, vizinhos. Enfim, crianças violentadas por pessoas tão próximas cuja posição projetada era a da proteção e do abrigo mais seguro.

Esses terríveis acontecimentos revelam uma outra realidade – o perigo mora em casa e na rua mais próxima. Todavia, a notícia da tragédia das crianças não consegue sensibilizar. Não tem força para produzir um eco maior na sociedade nem mobilizar as instituições. Todas elas.

Há uma indignação acomodada, só esboçada em locais fechados e gestos muito pequenos. Talvez, nesse silêncio se expresse por consequência a aceitação dessa violência naturalizando-a como uma das marcas da sociedade contemporânea.

É recente, na história da humanidade, o lugar da criança como pessoa portadora de direito. A série de abusos aos quais a infância está sendo submetida nega essa inserção e expõe, na sua versão mais bruta, a ameaça às conquistas realizadas na área da infância e da adolescência.

Que espécie de gente é essa capaz de violar a infância? Que sociedade é essa contemplativa diante dos números da violação? O que esperar das instituições (governos, judiciário, legislativo, escolas) insensíveis ao drama das crianças ultrajadas contado diariamente em forma de notícia?

Não acordamos para o fato de que nenhuma criança está a salvo. Nem as crianças da nossa casa, nem as crianças da casa do vizinho. Todas elas são alvo fácil da violação e das sentenças lançadas sobre elas. O horror exercitado contra meninas e meninos denuncia a própria condição dessa humanidade diante de um dos seus mais cruéis comportamento.

*Jornalista e Professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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