Jornada evolucionária
Publicado em: 27/11/2008 às 00:00 | Atualizado em: 27/11/2008 às 00:00
Edwards é também o idealizador da exposição Alfred Wallace – O evolucionista esquecido, que homenageia os 150 anos da Teoria da Evolução, formulada a partir dos trabalhos de Darwin e Wallace. A exposição, inaugurada em julho no País de Gales, ficará no shopping Millenium Center, em Manaus, até dezembro, para depois ser exibida em Brasília e São Paulo, em locais a serem definidos. A exposição de 50 fotografias veio de Londres com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia do Amazonas (SECT) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Ela é resultado da primeira fase de um projeto de três anos para tentar trazer a memória de Wallace à história, desenvolvido com apoio do Museu de História Natural de Londres.
As fotografias foram produzidas a partir de gravuras de peixes e palmeiras, feitas por Wallace, que de 1848 a 1852 percorreu trechos do rio Negro e Uapés. O naturalista coletou espécimes e registrou dados sobre a geografia, flora, fauna, linguagens e pessoas que encontrou pelo caminho. No retorno da sua expedição para a Inglaterra, o navio no qual viajava se incendiou e passageiros e tripulantes foram obrigados a abandoná-lo. Poucas anotações e gravuras foram salvas.
Mesmo com o grande prejuízo, Wallace conseguiu publicar nos anos seguintes seis artigos acadêmicos e dois livros sobre a região que conheceu, Palmeiras da Amazônia e seus usos e Viagens na Amazônia. “Não por acaso, tenho muita identificação com Wallace, sobre quem me interessei quando li a biografia de Darwin, por volta de 1968. Assim como ele, percorri um longo caminho em busca de financiamento para realizar esse projeto, que é uma releitura do que foi documentado por ele. São trabalhos próximos em épocas distintas”, disse Edwards, que é mestre em teoria da arte, com graduação em química e fotografia.
Edwards destaca que grande parte dos estudos de Wallace sobre a evolução foi embasada na viagem que realizou à Amazônia, quando a região ainda era considerada um “novo mundo”. “Ele acreditou que na Amazônia encontraria a resposta para o problema da evolução das espécies”, disse. “Em minha viagem, pretendo fotografar, filmar e registrar a vida na região dos rios Negro e Uapés, para tentar compreender suas dificuldades e interesses. Sinto que esse é um projeto muito urgente, maior que a realização de um projeto pessoal, porque posso ajudar no reconhecimento de Wallace”, disse o artista antes do início da viagem.
O reconhecimento também é almejado por pesquisadores. “É uma grande polêmica a questão da Teoria da Evolução. Mas é fato que Wallace merece um maior reconhecimento”, disse Hugo Mesquita, pesquisador do Inpa. Para Mesquita, Wallace, além de ser autodidata, era socialista e espírita, posições que poderiam ajudar a explicar, quem sabe, uma omissão histórica. “Era um homem que não aceitava as respostas fáceis sobre a origem de vida e que teve uma trajetória impressionante. Se não estamos falando de um herói, sabemos que, pelo menos, foi alguém muito especial”, disse.
Após retornar de sua viagem à Amazônia, Edwards partirá para uma nova fase de sua jornada “wallaciana”. Será a vez da Malásia e Indonésia, percorrendo os caminhos de Wallace, que lá esteve entre 1854 e 1862. Em 1858, Wallace escreveu a Darwin, expondo suas idéias sobre a evolução das espécies, o que levou à divulgação conjunta dos trabalhos.Em 1º de julho de 1858, as teorias dos dois foram apresentadas na Linnean Society, em Londres, com o título duplo On the Tendency of Species to form Varieties; and on the Perpetuation of Varieties and Species by Natural Means of Selection. No ano seguinte, Darwin publicaria A origem das espécies.
Trechos de impressões de Wallace sobre o rio Negro e Manaus. “No dia 31 de dezembro de 1849 à cidade de Barra do Rio Negro (o primitivo nome da povoação, Manaus, só foi restabelecido sete anos da estada de Wallace na cidade). Na véspera desse dia, ao pôr do sol, ainda estávamos nas águas amarelas do Amazonas, mas continuamos remando pela noite adentro, até bem tarde. Ao chegarmos à confluência do rio Negro, junto a uns rochedos, paramos nos baixos das margens e ali pegamos alguns peixes. Quando raiou a manhã, vimos com surpresa que as águas haviam sofrido uma extraordinária modificação. Podíamos até imaginar que estivéssemos no rio Estige, pois as águas que nos rodeavam pareciam antes uma tinta preta., a não ser onde as areias alvas, a alguns pés abaixo da superfície, rebrilhavam com laivos dourados. Na realidade, a água tem uma pálida coloração pardacenta, conforme se pode observar colocando-a num copo de vidro. Mas quando está reunida na volumosa massa deste rio profundo, adquire uma cor preta como azeviche, justificando plenamente o seu nome de rio Negro.”
“[…] As ruas (da cidade de Barrado do Rui Negro) são dispostas de maneira regular, mas não têm qualquer tipo de calçamento. Ademais, são esburacadas e cheias de altos e baixos, tornando-se bem desagradável o ato de caminhar-se por elas à noite. As casas são geralmente de um só pavimento, cobertas de telhas vermelhas e assoalhadas de tijolos. Pintam-se as paredes, quase sempre, de branco e amarelo, e as portas e janelas de verde. É bem agradável o aspecto do casario rebrilhando ao sol. Da antiga Fortaleza da Barra restam apenas os restos de suas muralhas, que hoje circundam um montão de terra. A cidade tem duas igrejas, ambas muito pobres e bem inferiores a de Santarém.” (Viagem pelos rios Amazonas e Negro, Editora Itatiaia/USP).

