O natal e a crise
Publicado em: 26/11/2008 às 00:00 | Atualizado em: 26/11/2008 às 00:00
Wilson Nogueira*
Das manobras perigosas da Pampa, evapora-se o fedor de borracha queimada. O jovem condutor ultrapassa um, dois, três… mas esbarra na fileira de carros a 200 metros do sinal. Ele queria escapar do engarrafamento, mas só conseguiu uma saraivada de xingamento dos menos apressados, porém não menos estressados. O sinal abre e fecha sem a fila andar. Agora a reclamação é geral contra os motoristas dos carros que fecham a caixa do cruzamento.
Ninguém respeita ninguém. Prevalece a lei do mais esperto, quando o trânsito permite. O trecho que poderia ser feito em um minuto só é vencido em dez. É isso mesmo: o trânsito no centro das grandes cidades está insuportável. Manaus já é uma grande cidade. Tem engarrafamento! Tem arrastão em prédios de apartamentos! Os enormes e coloridos edifícios se multiplicam! Afinal, é por esses sinais que se mede o tamanho das cidades. A qualidade de vida dos que nelas vivem pouco importa.
A Pampa arranca sobre o cruzamento e some. “Vai-te infeliz estressado! Ligo o rádio. Lá estão, de novo, os empresários clamando por apoio do Governo para vencer a crise. Logo eles, que nunca chamam o governo, muito menos a população para compartilhar os longos dias de bonança. Troco de emissora: a música da vez é aquela da “lapada na rachada”. Sucesso absoluto. O povo gosta de poeta que vai direto ao assunto. E como vai.
O cemitério São João Batista fica no retrovisor. O cair da noite realça os enfeites luminosos que contornam os troncos e os galhos das árvores do canteiro central do boulevard Álvaro Maia. É Natal! O mundo está assim: enfeitado para celebrar o nascimento do Menino Jesus. Mas é a figura do Papai Noel que, preferencialmente, enfeita as casas dos pobres e dos ricos. É comum ver o bom velhinho pendurado nas sacadas dos edifícios ou nas paredes dos barracos.
O trânsito pára na entrada da passagem de nível Jornalista Josué Cláudio de Souza. Bate um chuvisco. Sintonizo outra emissora. Um grupo de jornalistas bate boca sobre quem sobe e quem desce na tabela do campeonato brasileiro de futebol. Esse assunto é tão importante quanto a crise financeira mundial. Falam tão rápido, e em sotaque paulista arrastado, que mal consigo entendê-los. O chuvisco se transforma em chuva torrencial e o tráfego fica mais emperrado. O pára-brisa acelerado range. O tráfego parado irrita..
Na escuridão facilitada pelo tempo carregado, sobressaem-se os enfeites natalinos. Ainda não é dezembro, mas já é Natal. Acreditem, pois o Natal não é uma data, é estado de espírito! Sempre será possível antecipar o Natal, principalmente em tempo de crise.
E viva o natal!
Ah! Antes que eu esqueça: o motorista apressadinho enfeitava a traseira da Pampa dele com um enorme Papai Noel, bonachão e risonho.
* jornalista, sociólogo e escritor
