“O papel do diploma vai ser modificado”
Publicado em: 25/06/2009 às 00:00 | Atualizado em: 25/06/2009 às 00:00
É inevitável que a gente comece essa entrevista falando da questão do diploma de jornalista. Como o senhor avalia a decisão tomada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no dia 17?
Eu não vou avaliar a decisão do Supremo, os termos em que foi redigido, os argumentos, nada. Eu vou entrar no assunto direto do diploma. Eu achei que foi correto abolir a obrigatoriedade porque era uma anomalia. Nós éramos um dos poucos países onde se exigia isso, e também era uma anomalia porque era uma exigência extremamente radical. Você faz um curso de Sociologia, de História, de Economia ou de Antropologia e você não pode ser jornalista. E são cursos que, na verdade, preparam as pessoas para entender a sociedade humana muito melhor do que qualquer curso de jornalismo. Portanto, era uma anomalia e um equívoco.
Além do mais, no decorrer do tempo, foi se mostrando um instrumento que se voltou contra nós, porque a idéia de que um diploma de jornalismo oferece uma reserva de mercado levou à criação de uma indústria de diplomas. Então você tem hoje no Brasil 400 escolas de comunicação com habilitação em jornalismo. Você tem cidades, aqui mesmo em Manaus, tem cinco cursos de jornalismo. Você multiplica por 20. São colocados no mercado por ano 100 novos jornalistas. Não tem como absorver esse pessoal. Aquilo que era para proteger as relações de trabalho virou-se contra, porque vendemos uma ilusão.
Há outros motivos também, mas os dois principais motivos da minha posição é que eu acho que o jornalismo pode ser praticado por pessoas que tenham talento para o jornalismo, independente da sua educação formal, e a lei vedava o acesso a essas pessoas – eu sou um exemplo vivo disse tipo de pessoa, eu, o Ricardo Kotscho, o Fernando Moraes e muitos outros jornalistas de renome no Brasil não seriam jornalistas se a lei estivesse em vigor quando nós começamos. E o segundo motivo é de ordem da importância que o jornalismo tem para a democracia. Poder se expressar sobre a forma jornalística é um direito que deve ser de todos, desde que tenham talento para isso. Então, com essa decisão, começa-se agora, do zero, uma nova discussão.
O senhor acha que ainda faz sentido manter cursos de jornalismo?
Faz, faz. Não vejo nenhum problema. O que eu acho que vai acontecer é que o papel do diploma vai ser modificado. As empresas, provavelmente – como vivemos num mundo de muita competição e um excedente de mão-de-obra – vão usar o diploma como um dos critérios de contratação ou de seleção. Por exemplo: a rede McDonald só contrata essas meninas e esses rapazes que tenham concluído o ensino médio. Não é que precise do curso médio para vender sanduíche, mas isso facilita a contratação, porque sabe que o sujeito frequentou uma escola, sabe ler e escrever, sabe fazer conta. Eu acho que o diploma vai ser um critério de contratação, mas sem excluir pessoas que não o tenham. Não vai acontecer nada de dramático. Algumas escolas que se criaram só para vender a ilusão do diploma vão fechar, mas as escolas são importantes.
Do ponto de vista da disciplina, isso pode abrir um campo maior de reflexão nos cursos de jornalismo?
Aí, nós temos um problema mais complexo. Eu penso assim: sempre foi muito complicado se saber o que ensinar para se formar um jornalista. Por isso, quando o curso era de habilitação, se tornava uma tarefa quase impossível. O que você vai ensinar para habilitar o cara a ser jornalista? No fim, ele saía de lá com uma colagem de disciplinas e uma não tinha nada a ver com a outra. Algumas, inclusive, eram disciplinas de crítica ao jornalismo, que são importantes, mas que acabavam até negando o jornalismo.
Todas essas disciplinas da Escola de Frankfourt, que fica dizendo que é tudo embromação, manipulação, um simulacro… O cara entra lá para ser jornalista e não se oferecia a ele um caminho para superar isso. No outro extremo, você tem esses cursos que são meramente técnicos, como mexer nos programas, como editar… Então, é uma confusão muito grande, e nunca se soube direito o que ensinar.
Agora, eu acho que não sendo uma habilitação com reserva de mercado, os cursos ficam mais livres para escolherem diferentes vocações de ensino. Por exemplo, a ECA/USP tinha uma vocação, devido à qualidade dos alunos que entravam e ao ambiente da universidade, de formar quadros dirigentes da imprensa. Muitos alunos meus saíam e depois de dois anos já estavam sendo chefes. Tem escolas que formam alunos mais para a televisão. Então, a solução para o ensino do jornalismo é que floresçam mil flores, conforme a região, conforme a necessidade do mercado local…
Agora, aí tem uma discussão que eu acho que seja qual for a receita daquele curso, ele nunca pode esquecer que é a única vez na vida que o jovem vai passar pela universidade naquela idade. Então, o curso tem que ser importante na vida daquele jovem. A proposta não pode ser rebaixada, mas ela pode assumir várias formas. Vai ficar mais fácil você compor esses currículos. Você pode compor um belo currículo de sociologia e meter lá três ou quatro disciplinas sobre ética jornalísticas e o que é matéria jornalística e pronto, o cara está formado, o resto vem depois.
Essa questão da ética jornalística o senhor trabalha com muita propriedade no seu livro ‘A síndrome da antena parabólica’. A minha preocupação em relação a esse tema é que não se aprende a ser ético na universidade. O indivíduo aprende a ser ético ou não ao longo da vida. O senhor concorda com esse pensamento?
Eu acho que são planos diferentes, porque a expressão designa várias coisas. O caráter da pessoa se forma, dizem os especialistas, até os 3 ou 4 anos de idade, os traços essenciais do caráter. Os valores ele vai adquirindo um pouco depois. Agora a ética, ou o ensino da ética é importante, porque você precisa sobrepor sobre os valores individuais, familiares, as diferenças de caráter, você precisa impor um conjunto de regras de conduta, que seja compartilhado por todos, independentemente do seu caráter. E elas são importantes justamente porque as pessoas têm o caráter diferente. Por exemplo: se todo mundo tivesse uma formação de caráter alérgica à mentira, você não precisaria ter no código de ética do jornalista que ele tem que procurar a verdade. Justamente você precisa impor a conduta porque ela não é natural em algumas pessoas.
A ética que deve se ensinar nas escolas de jornalismo é uma ética, como campo da Filosofia, das diferentes escolas filosóficas, e depois, você tem que ensinar a ética aplicada àquela atividade, que é o jornalismo: os conflitos, os valores principais dessa ética, os preceitos, o proibido e o estimulado, os conflitos entre o caráter público que deve ter a informação e o problema da preservação da vida privada dos protagonistas, o conflito de você sair na frente com um furo ou deixar para o dia seguinte para checar um pouco melhor… São todos conflitos de ordem ética.
Se você não estuda isso na escola, você perde uma das maneiras de o jovem entender a demarcação do jornalismo. Ele tem uma demarcação que é principalmente ética, que é o que vai distingui-lo do assessor de imprensa. Nesse livro que você citou tem uma frase: “O jornalismo se define como uma ética, não como uma técnica”.
Considerando que não é possível e seria um erro generalizar o jornalismo brasileiro, como o senhor avalia o jornalismo que se pratica hoje no Brasil? Vamos ficar com os jornais de circulação nacional, como Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo?
O que eu chamo de jornalões. Esses jornalões assumiram nos últimos anos uma função muito exacerbada ideológica, que acaba sendo o objetivo principal dessa fatia da imprensa. Nesse processo, mas eu acho que por outros motivos também como o excesso de competição, a má formação dos jovens, nesses jornalões, lamentavelmente, eu acho que hoje – não digo sempre em todos eles e em todas as editorias – é muito comum você encontrar uma certa ética da malandragem.
O bom repórter é aquele que conseguiu aprontar uma armadilha para o entrevistado, é o cara que fez o sujeito dizer uma coisa que na verdade ele não estava pensando, é o cara que consegue gravar escondido uma entrevista sem o sujeito perceber. Tudo truques que vão contra um dos princípios fundamentais da ética jornalística americana, que é o que eles chamam de fair play (jogo limpo). O jornalista precisa sempre fazer jogo limpo com as fontes, com o leitor. Aqui, o tempo todo é um jogo sujo. É a manipulação do título, é publicação só de metade que o cara falou.
Daí, surge uma novidade com a criação do blog da Petrobras (Fatos e Dados). Ele surge como resposta às manipulações que a imprensa faz. Esses jornalões perderam o foco na preocupação de informar corretamente, adequadamente, contextualizadamente e colocaram o foco na tarefa de fazer luta ideológica e política, desgastar certas pessoas, desgastar certos governos para proteger outros. O tempo todo você vê esse jogo. É uma coisa triste, e ficou sendo a cultura dominante nas redações ou, pelo menos, em algumas equipes de redações.
O senhor falou, ainda há pouco, da ética como um ente compartilhado. Como é que o senhor vê a sociedade brasileira hoje, principalmente, os leitores nesse compartilhamento? Os leitores têm algum poder?
É importante você perguntar isso, porque eu havia esquecido de falar, e é uma coisa que me motivou a uma intervenção em um congresso de professores, que depois virou um texto de um livro meu, que eu acho interessante. O livro chama-se ‘O jornalismo no tempo virtual e o colapso da razão ética’, em que justamente eu parti da minha experiência em classe, que tem a ver com a tua pergunta.
Eu fiz um exercício de ética: uma situação de sequestro, a Rede Globo noticiou e os outros fizeram um pacto de silêncio e não noticiaram, para proteger a vítima. E eu coloquei em discussão: do ponto de vista jornalístico, qual é a atitude correta? Eu percebi que a classe não tinha condição de aceitar uma diretiva compartilhada por todos. Eles sequer entendiam que era possível haver uma ética aplicada comum a todos os jornalistas, porque cada um tinha a sua consciência. Aí eu percebi que nós vivemos uma era, que alguns chamam de pós-moderna em que você não tem mais os valores dominantes: você pode ter a opção sexual que quiser, pode ser mãe solteira, pode ser desquitada, separada, viúva, pode se vestir do jeito que quiser…
Então, o valor dominante na nossa era é um antivalor, é um valor tolerância. Tudo é tolerável. Como tudo é tolerável,você não consegue discutir com uma classe a possibilidade de haver uma ética um comportamento único naquela situação específica. Não há mais possibilidade de haver ética aplicada. Na verdade, eu acho que deve haver, mas a cultura de hoje torna difícil.
Isso exigiria mais uma capacidade de diálogo ou mais uma capacidade a partir da formação do indivíduo na sociedade?
Não é falta de diálogo. Eu acho que é uma alergia a qualquer forma de autoritarismo, de enquadramento, de que tem que ser assim e não pode ser assado. Realmente, é uma cultura de que o valor dominante é o antivalor. Qual é o valor dominante? Que tudo é permitido.
Na sua avaliação, essa é uma boa atitude da sociedade?
Não, eu acho que no jornalismo, no caso da ética aplicada, leva a um equívoco fundamental, porque você acaba não estudando o que é o jornalismo. A essência do jornalismo é difundir a verdade de interesse público. Na hora que ele começa a condicionar essa função a outros fatores, o jornalista começa a negar a sua profissão. Ele começa a entrar numa zona de perigo. Ele começa a julgar se deve ou não divulgar aquele sequestro, começa a assumir coisas que não estão sob o domínio dele, e amanhã começa a julgar outras: isso aqui também eu não vou publicar porque vai fazer mal.
Então, o jornalista começa a ser um sensor dele mesmo. É socialmente importante? É de interesse público? Então, tem que publicar. Isso você estuda quando está estudante ética. O Kant, por exemplo, diz que verdade e mentira são coisas que não estão no mesmo plano. O jornalista que diz a verdade e depois acontece uma desgraça por causa do que ele disse, ele não é responsável pela desgraça; mas se ele diz uma mentira e acontece uma desgraça, ele é responsável.
Como o jornalista pode lidar com essas questões quando elas partem dos donos da empresa jornalística?
É por isso que a formação é importante, porque é só na escola que você pode incutir no futuro jornalista padrões de conduto que depois o mercado vai tentar desarticular, desarmar. Mas a escola é o lugar onde ele vai adquirir o padrão. Eu comparo, embora seja uma comparação forçada, com a Medicina. O aluno de uma faculdade de medicina vai, com o orientador, aquele médico famoso, com quatro ou cinco alunos, ficam ao redor da cama do doente, discutindo os sintomas, vão adquirindo um padrão, gastam um tempo ali. Agora, depois que o médico se forma, vai trabalhar no mercado, numa seguradora, dá cinco minutos para cada diagnóstico. É o mercado, mas ele teve condições de adquirir um padrão. Só na escola você pode fazer isso.
Por isso a escola é importante? Aí, volta aquela tua pergunta: curso de jornalismo é importante? Sim. Eu por exemplo, sou contra essas escolas que pedem um jornal laboratorial e já chamam ele de copião, rascunho, já chamam ele de coisa mal acabada. Eu acho que na escola tinha que ter um padrão para publicar mais rigoroso do que no mercado. Essa matéria você vai reescrever. Manda reescrever três vezes, depois publica, quando tiver perfeita, para o aluno perceber também que só pode publicar uma coisa perfeita.

