O peixão do Bracinho

Publicado em: 15/12/2010 às 00:00 | Atualizado em: 15/12/2010 às 00:00

  Neuton Corrêa*

 Da janela do busão, enxerguei Bracinho. Ele estava em um ponto de ônibus da avenida Djalma Batista. Vestia-se do mesmo modo que o conheci em novembro de 2004: tênis, calça e jaqueta jeans; e mantinha o costume de colocar as mãos nos bolsos da jaqueta.

Conheci o Bracinho em uma viagem de trabalho para o interior do Estado. Não sei o verdadeiro nome dele nem me recordo se chegou a se apresentar. Mas, se tivesse se apresentado, não faria diferença. Ainda assim continuaria a chamá-lo de Bracinho por questões óbvias: o braço dele é desproporcional ao tamanho do corpo.

Na verdade, não é exatamente desproporcional ao corpo, mas ao conjunto das extremidades superiores. Os braços são regulares, as mãos também. O problema é o antebraço, entre o cotovelo e o punho: é tão pequeno que quase não lhe permite roçar as mãos na cintura.

Não me lembro dele apenas pela assimetria corporal, mas pelas cascatas que falou nos dois dias que passou com a gente (éramos cinco repórteres, dois fotógrafos e três cinegrafistas). Exibiu-se já na viagem, quando o avião em que estávamos entrou em instabilidade com um mau tempo que durou mais de uma hora.

Para se ter ideia do desespero na viagem, uma colega gritava e ameaçava colocar o fígado para fora a toda vez que o aparelho despencava no vácuo. Outro colega, quase furava as mãos de tanto fazer figa. E eu estava para tomar banho com o suor gelado que saía das minhas mãos. Nessa hora, tudo passa pela cabeça. Na minha, por exemplo, só vinham as imagens da tragédia do acidente com o voo da Rico Linha Áreas que havia acontecido seis meses antes.

Quando o temporal passou, Bracinho, que viajava nas poltronas da frente, olhou para trás e disse: “Vocês são muito moles, não aguentam um tempinho desses. Eu não senti nada”. Ninguém lhe respondeu, até porque ele continuou a relatar episódios mais dramáticos das aventuras que passou no ar, até como paraquedista.

Em terra, no lugar onde os jornalistas iriam cobrir a destruição de órgãos públicos durante as eleições daquele ano, Bracinho, como uma necessidade, mostrava que conhecia tudo sobre a cidade e corrigia, em tom de repreensão, quem apresentava alguma informação que ele julgava errada. Levei uma dessas repreensões quando disse que aquele município tinha uma receita mensal de ICMS em torno de R$ 300 mil. E ele, prontamente: “R$ 300 mil, não. O ICMS daqui é de R$ 301.550,50”.

Antes do embarque de volta a Manaus, Bracinho voltou a se exibir. Dessa vez, o assunto era pescaria. Um dos cinegrafistas contou que, no lago de Balbina, em Presidente Figueiredo, capturou um tucunaré de doze quilos. Para mostrar o tamanho do bicho, ele levantou as mãos e disse: “Era mais ou menos desse tamanho”.

Eu não tinha história de peixe grande, mas podia contar do 7 de Setembro de 1997, quando o barco de meu pai foi fretado para um grupo de pescadores. Só num lance, os pescadores trouxerem na rede mais de duas toneladas de curimatãs e ainda disseram: “Erramos o lance”.

Acabava de contar essa passagem, quando o Bracinho puxou a dele: “Aqui nesse rio (disse ele apontando na direção do rio Purus), peguei uma piraíba enorme”. E continuou: “Eu coloquei um tracajazinho vivo no anzol e joguei n’água. Não demorou muito, a porrada cantou”.

Nessa hora, ele abriu o braço o que pôde e continuou:

– Olha o tamanho do peixão!

Um dos cinegrafistas insistiu, olhando para o braço dele:

– Mostra aí, de novo, o tamanho do peixe.

E ele outra vez esticou os braços e sustentou:

– “Deeeeeeesse tamanhão”.

*Filósofo e escritor.

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